Quando a Seleção Brasileira entra em campo para mais uma fase decisiva da Copa do Mundo, um dos seus mais fiéis e experientes torcedores estará, sem dúvida, sintonizado. Aos 91 anos, o piauiense Simão Ribeiro da Silva, carinhosamente conhecido como Seu Simão, se prepara para assistir à sua 20ª Copa do Mundo, um feito que o consagra como uma verdadeira lenda viva da paixão nacional. Pioneiro na construção de Brasília, eletricista e diácono, Seu Simão atravessou quase um século de história do futebol e, com a sabedoria dos anos, mantém uma aposta otimista: o tão sonhado hexacampeonato vem.
Uma Vida Moldada Pela História do Brasil e da Torcida
Nascido em Cristino Castro, Piauí, Seu Simão não apenas testemunhou a evolução do futebol brasileiro, mas também participou ativamente da construção do país. Sua trajetória, desde os garimpos piauienses até o papel de pioneiro na fundação da capital federal, reflete uma vida de dedicação e trabalho. Com uma vasta família que inclui sete filhos, mais de dez netos e vinte bisnetos, ele é um elo vivo entre gerações, compartilhando histórias de um Brasil em constante transformação, sempre acompanhadas pela inabalável paixão pela Seleção Canarinho.
Da Emoção Sonora do Rádio à Revolução da TV Colorida
A forma como Seu Simão acompanhou os Mundiais ao longo das décadas é um espelho da própria evolução tecnológica das transmissões. Ele vivenciou a era do rádio, onde a imaginação e a voz dos locutores criavam a atmosfera de cada partida, e presenciou a chegada da televisão, com suas imagens em preto e branco e, posteriormente, as cores vibrantes que transformaram a experiência de torcer.
A Paixão Sonora de 1950 e a 'Calamidade' do Maracanã
Seu Simão relembra com carinho a emoção das transmissões radiofônicas nas décadas de 1950 e 1960. Era através do rádio de válvula, um luxo para poucos naquela época, que ele ouvia as narrativas cheias de suspense e êxtase. Foi por um desses aparelhos, enquanto trabalhava nos garimpos do Piauí, que ele soube da dolorosa derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa de 1950. Aquele revés no Maracanã, que ele descreve como uma 'calamidade' para a nação, foi vivido intensamente, com a voz dos locutores 'badalando' cada lance e cada gol, essencial para a festa e o sofrimento da torcida naqueles tempos.
O Tricampeonato em Cores e o 'Cineminha' Comunitário de 1970
A chegada da televisão trouxe uma nova dimensão à paixão de Seu Simão. Enquanto na década de 60 os aparelhos eram raros e as transmissões em preto e branco sofriam com a má recepção, a Copa de 1970, no México, marcou uma virada. O veterano torcedor foi um dos poucos a possuir uma TV colorida na sua localidade, transformando sua casa em um ponto de encontro. A afluência de amigos e vizinhos era tanta que, para o jogo seguinte, ele montou um verdadeiro 'cineminha' na rua, com a televisão ao ar livre e bancos para todos. Ali, em cores vibrantes, a comunidade pôde testemunhar o histórico tricampeonato mundial com lendas como Pelé, Jairzinho e Tostão, em uma 'farra' coletiva inesquecível, muito diferente da forma de se vibrar apenas pelo som.
A Inabalável Confiança no Futuro Hexacampeonato
Mesmo após décadas de vitórias e desilusões, o otimismo de Seu Simão pela Seleção Brasileira permanece intacto. Analisando o cenário atual, ele vê qualidades na equipe que o fazem acreditar veementemente no sucesso. “Nós já tivemos Copa assim, a turma foi meio desacreditada e depois levantou a moral. Mas eu acho que eles estão escolhendo muito bem. Os caras estão bons. Primeiro, eles não devem nada a eles lá. Não vai ter para ninguém não. O hexa vem”, crava o torcedor, que hoje reside em Sobradinho, no Distrito Federal. Sua fé é um reflexo do legado de uma nação que, como a Seleção, já ergueu a taça cinco vezes, sendo a única pentacampeã mundial (em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), e que agora busca o sexto título com a mesma esperança que Seu Simão carrega há mais de 70 anos.
A história de Seu Simão é um testemunho vivo da resiliência e da paixão do torcedor brasileiro. Através de sua jornada, vemos não apenas a evolução do esporte e da mídia, mas também a alma de um povo que vibra, sofre e celebra a cada Copa. Aos 91 anos, ele continua sendo a voz da esperança, um guardião das memórias e um símbolo inquebrantável da crença de que, mais uma vez, o Brasil levantará o troféu de campeão mundial.