Pioneiras do Futebol Feminino Recontam Luta e Celebram Reconhecimento em Programa Histórico

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O programa Sem Censura, da TV Brasil, abriu espaço para um capítulo fundamental da história esportiva brasileira, recebendo três figuras emblemáticas do futebol feminino. Em uma conversa emocionante e reveladora, Marilza Martins da Silva, a Pelezinha; Marisa Pires, a Caju, primeira capitã da seleção brasileira feminina; e Márcia Matos, a Russa, bicampeã sul-americana e participante do Mundialito, compartilharam suas memórias e a resiliência necessária para construir um esporte outrora proibido no país.

Do Banimento à Regularização: A Fundação de uma Paixão

O futebol feminino enfrentou um longo período de invisibilidade e restrição, oficialmente banido por um decreto do então presidente Getúlio Vargas nos anos 1940. Somente em 1980 a modalidade foi finalmente regularizada, abrindo caminho para o surgimento de iniciativas pioneiras. Nesse contexto, o Esporte Clube Radar, fundado em 1932 em Copacabana, Rio de Janeiro, emergiu como um catalisador vital. Sob a liderança visionária do empresário Eurico Lyra, o clube abraçou o futebol feminino em 1981, tornando-se não apenas uma equipe de ponta, mas a base para a própria seleção brasileira nos anos 80, forjando talentos que desafiariam as normas da época. Foi no Radar que Marilza Martins da Silva ganhou o apelido de 'Pelezinha', dado por Eurico ao observar sua leveza e habilidade de drible na areia, comparando-a a uma bailarina que 'flutua'.

A Camisa Amarelinha e o Sonho Mundialista

O ano de 1988 marcou um ponto de virada significativo para essas atletas. O anúncio de Eurico Lyra de que elas representariam a Seleção Brasileira Feminina de Futebol na China gerou uma empolgação indescritível. Receber a icônica camisa amarela com o emblema da CBF e o escudo do Radar foi um momento de grande emoção. Pelezinha relembrou a magnitude daquela viagem, embora confessasse que, na época, a noção de uma 'seleção feminina' ainda era incipiente. Seu verdadeiro anseio era ver a realização de um campeonato mundial feminino. Quando foi convocada para o primeiro mundial e percebeu que voltaria à China para concretizar esse sonho, a ficha caiu: 'Meu Deus vou ter de voltar à China para realizar esse sonho que eu tinha, né', recordou, ilustrando a jornada de uma visão pessoal para uma realidade coletiva.

Estádios Lotados e a Paixão Indomável

Marisa Pires, a Caju, ex-capitã da seleção, desmistificou a ideia de que o futebol feminino atraía poucos espectadores. Em resposta a uma pergunta sobre a diferença de público entre o passado e o presente, ela enfaticamente afirmou que os estádios sempre foram cheios, citando o 1º Campeonato Sul-Americano de 1995, em Uberlândia (MG), como exemplo. 'Os jovens pensam que os estádios ficavam vazios, mas não ficavam. Todos queriam ir assistir aos jogos, para ver se as mulheres jogavam bem', explicou, acrescentando que muitos homens se surpreendiam e reconheciam que 'futebol também é para mulher'. Essa paixão e curiosidade do público contrastavam com a realidade financeira das jogadoras, que não recebiam salários fixos, dependendo do 'bicho', um valor por partida, pago apenas em caso de vitória. A persistência, o amor e a paixão pelo esporte, segundo Caju, foram os verdadeiros motores que levaram o futebol feminino ao patamar atual.

Reconhecimento Tardio e a Gratidão de uma Geração

A conversa no Sem Censura também abordou um marco recente de justiça: a sanção da lei pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prevê o pagamento de R$ 500 mil para as atletas que representaram o Brasil entre 1988 e 1991. A notícia foi recebida com profunda emoção. Caju expressou a longa espera de 38 anos: 'Ele veio tarde, mas veio muito bem. Só Deus sabe a emoção que a gente está tendo', destacando que a premiação se estenderá também aos familiares das atletas já falecidas. Para Pelezinha, essa conquista é a realização de planos adiados: 'Eu não pude realizar todos os planos quando jogava. Mas Deus me deu essa força, de chegar aos 62 anos e realizar metade dos planos que sonhei'. Caju, emocionada, completou: 'Deus me permitiu, aos 59 anos, ter essa vitória. A vitória de hoje vai ajudar muito no nosso futuro. A gente vai poder viver e descansar um pouquinho. O meu choro é por toda uma geração que conseguiu essa conquista'.

A Luta Silenciosa por Justiça

Márcia Matos, a Russa, fez questão de ressaltar a figura fundamental por trás dessa lei: Marileia dos Santos, conhecida como Michel Jackson. Atualmente no Ministério do Esporte, Marileia trabalhou silenciosamente por oito anos, incansavelmente, para garantir que as atletas pioneiras fossem beneficiadas. 'Nós temos que ter essa gratidão a Michel. Ela foi incansável. Correu atrás e conseguiu que as atletas pioneiras do futebol feminino fossem beneficiadas', celebrou Russa, evidenciando que a conquista é fruto de um esforço coletivo e individual de dedicação.

A presença dessas pioneiras no Sem Censura não foi apenas uma retrospectiva, mas uma celebração da resiliência, do amor incondicional pelo futebol e da vitória da persistência. Suas histórias servem como um testamento vivo da força feminina no esporte e da importância de reconhecer aqueles que pavimentaram o caminho para as gerações futuras, garantindo que suas contribuições sejam eternamente lembradas e valorizadas.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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