Ribeirão Preto, uma metrópole vibrante no interior de São Paulo, guarda sob suas avenidas e edifícios modernos camadas profundas de história. Locais amplamente frequentados, como a emblemática Praça XV de Novembro e o movimentado Shopping Santa Úrsula, escondem um passado surpreendente: ambos os terrenos já serviram como locais de descanso final para os habitantes da antiga vila. Essa revelação transforma a percepção de uma simples caminhada ou dia de compras, convidando a uma viagem no tempo para desvendar os usos primordiais desses espaços centrais e as complexas razões por trás de sua transformação.
A Praça XV: O Primeiro Cemitério Urbano e Seus Registros Históricos
O coração da atual Praça XV de Novembro abrigou, a partir de 1867, o primeiro cemitério urbano de Ribeirão Preto. Sua criação coincidiu com a construção da Capela de São Sebastião, marcando uma era em que a Igreja Católica desempenhava funções sociais e administrativas que hoje são atribuídas ao poder público, incluindo a gestão de sepultamentos. O local original do cemitério se estendia desde a atual Fonte Luminosa até as proximidades do Monumento ao Soldado Constitucionalista, uma área significativa no centro da cidade.
A instalação de cemitérios ao lado ou nos fundos de capelas era uma prática comum na época, considerando esses terrenos como sagrados e apropriados para o descanso dos mortos. Durante aproximadamente uma década, este espaço vital foi o principal local de sepultamento na então Vila de São Sebastião do Ribeirão Preto. Historiadores como José Antônio Lages revelam que a igreja não apenas geria esses cemitérios, mas também mantinha registros meticulosos de nascimentos, casamentos e óbitos, muitas vezes em um único documento.
Um valioso livro de óbitos daquele período, o primeiro de Ribeirão Preto, serve como um fascinante testemunho histórico. Detalhava não só os sepultamentos, mas também funcionava como um livro de contabilidade da igreja, registrando receitas e despesas. Entre 1867 e 1870, foram anotados 268 sepultamentos, discriminando 149 homens e 119 mulheres, com informações sobre idade, filiação, causa da morte e, em alguns casos, os valores pagos pelos enterros, ou a gratuidade concedida a famílias carentes. Apesar da urbanização e das reformas subsequentes, especialistas como Lages alertam que é altamente provável que restos mortais ainda permaneçam sob a praça, não tendo sido completamente removidos com o fechamento do cemitério.
A Evolução Urbana e a Migração dos Sepulcros na Cidade
O crescimento acelerado da Vila de São Sebastião do Ribeirão Preto impôs novos desafios à gestão do espaço urbano. Conforme o historiador Felipe Souza, o primeiro cemitério da Praça XV tornou-se insuficiente para a crescente população. Além disso, movimentos sanitaristas e higienistas da época preconizavam o afastamento dos cemitérios dos centros urbanos, impulsionando a desativação do local. A própria Igreja Matriz, já em decadência estrutural por volta de 1878, contribuía para a necessidade de reestruturação dos serviços eclesiásticos e funerários.
Após a desativação do cemitério da Praça XV, outros dois locais foram designados para sepultamentos temporariamente na região central. Inicialmente, um cemitério foi transferido para a Praça As Bandeiras, onde hoje se encontra a Catedral. Posteriormente, por volta de 1887, houve uma nova realocação para as proximidades da atual Praça Sete de Setembro. Essa transição perdurou até 1893, quando foi inaugurado o Cemitério da Saudade, localizado nos Campos Elíseos. Este último marcou um ponto de virada, tornando-se o primeiro cemitério público oficial de Ribeirão Preto. Embora esforços tenham sido feitos para que famílias removessem os restos mortais de seus parentes dos antigos locais, a certeza de que todas as sepulturas foram transferidas é um mistério que persiste.
As Histórias Ocultas do Shopping Santa Úrsula
Paralelamente à história da Praça XV, outro ponto de grande movimento em Ribeirão Preto esconde um passado de sepultamentos. O terreno onde hoje se ergue o Shopping Santa Úrsula, um dos principais centros comerciais da cidade, foi outrora um cemitério privativo. Este espaço era utilizado especificamente para o sepultamento de freiras e outras religiosas que pertenciam à congregação responsável pelo antigo colégio que ocupava o quarteirão. Essa designação exclusiva para membros da ordem religiosa destaca uma prática comum em instituições confessionais da época, conferindo ao local uma camada de história ligada diretamente à vida religiosa e educacional da cidade.
Ribeirão Preto: Uma Cidade Sobre Camadas de Memória
A revelação de que espaços tão integrados à vida cotidiana de Ribeirão Preto, como a Praça XV de Novembro e o Shopping Santa Úrsula, já foram cemitérios, oferece uma nova perspectiva sobre a cidade. Essa jornada através de seu passado funerário não apenas resgata fatos históricos fascinantes, mas também sublinha a constante transformação urbana e a capacidade de uma cidade de reescrever seu próprio território. Ao caminhar por esses locais hoje, somos convidados a refletir sobre as vidas que ali repousaram e as memórias que continuam a ecoar sob a superfície do presente, lembrando-nos que cada metro quadrado de uma cidade pode ter uma história para contar.
Fonte: https://g1.globo.com