Convento Nossa Senhora da Conceição: Itanhaém Impulsiona Restauração de Patrimônio Histórico

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No cume do Morro do Itaguaçu, em Itanhaém, ergue-se o Conjunto Arquitetônico da Igreja e Ruínas do Convento Nossa Senhora da Conceição, uma das primeiras edificações do Brasil e testemunho vivo de quase 400 anos de história. Reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1941, este ícone cultural está prestes a vivenciar uma nova fase: um ambicioso projeto de restauro que promete devolver sua vitalidade e acessibilidade à comunidade. Recentemente, a relevância da iniciativa foi debatida no Fórum do Patrimônio Histórico e Requalificação Urbana, evento promovido pela Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém (AEAI), que reuniu especialistas para traçar o futuro das áreas de interesse histórico da cidade.

O Berço Histórico e Estratégico do Convento

Mais do que um templo, o Convento Nossa Senhora da Conceição representa um marco fundamental na ocupação do território indígena durante os primeiros séculos da colonização portuguesa. Segundo a arquiteta, urbanista e professora universitária, Dra. Regina Helena Vieira Santos, com vasta experiência em projetos de restauro, a localização da edificação no alto do Morro do Itaguaçu, termo tupi que significa 'grande pedra', não era meramente simbólica. Ela revela que sua arquitetura, com elementos como as janelas seteiras, evidenciava uma dupla função: a de um espaço de defesa e ataque, refletindo o contexto da expansão marítima europeia e a utilização da religião como estratégia de apropriação das novas terras. As belas ruínas atuais são, portanto, um registro palpável de uma época de grandes transformações, conferindo ao Convento um valor que transcende a identidade local de Itanhaém.

O Projeto de Restauro: Desafios e Fomento Cultural

A expectativa em torno da restauração do Convento é alta, e o projeto executivo de restauro arquitetônico conservativo está sob a coordenação da Dra. Regina Santos. Esta iniciativa é viabilizada pelo Programa de Ação Cultural (ProAC nº 13/2024), na linha 'Arquitetura para ocupação de bens tombados pelo CONDEPHAAT', um fomento crucial da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O grande desafio, conforme explica a arquiteta, reside na complexidade da empreitada e no prazo estimado de apenas dez meses para sua execução. A elaboração dos desenhos técnicos é uma etapa vital, pois servem como linguagem de comunicação com os órgãos de preservação, além de serem indispensáveis para a quantificação e orçamentação da obra, garantindo a fidelidade e a integridade histórica do Conjunto Arquitetônico da Igreja e Ruínas.

Preservação Cultural: Um Olhar Ampliado sobre Itanhaém

O esforço para restaurar o Convento Nossa Senhora da Conceição insere-se em um contexto maior de valorização do patrimônio histórico de Itanhaém. A Dra. Regina Santos destaca a presença de outros edifícios emblemáticos na cidade, como a Câmara e Cadeia e a Matriz Santana, além do casario do século XVI, erguido com técnicas construtivas de barro como pau-a-pique e taipa de pilão. Ela lamenta que Itanhaém tenha sofrido significativas perdas históricas devido a intervenções urbanas e edilícias inadequadas ao longo do tempo. Nesse cenário, o engajamento de entidades locais, como a Comissão de Patrimônio da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém, é fundamental. Essa comissão, formada por profissionais interessados na preservação cultural, representa um avanço positivo para a cidade, fortalecendo a articulação com o Estado e a Federação na defesa e recuperação de seu valioso legado.

Princípios Universais da Conservação Patrimonial

Com experiência em diversos países, a Dra. Regina Santos enfatiza que os princípios de conservação e recuperação de edificações antigas são universais, guiados pelas 'cartas patrimoniais' aceitas globalmente. Ela compara essas diretrizes às regras dos jogos olímpicos, válidas em todos os continentes. A ciência da restauração se desenvolveu após a Revolução Francesa, que resultou na destruição de muitos monumentos, levando à formalização de estudos e diretrizes em congressos técnicos dos séculos XIX e XX. Um dos princípios mais importantes dessas cartas é a *distinguibilidade* entre o original e o novo, evitando a criação de 'falso histórico'. O objetivo é preservar a autenticidade e a integridade dos bens culturais, garantindo que as intervenções sejam claras e não descaracterizem a memória da construção. O Convento, portanto, será restaurado sob a égide desses preceitos, buscando devolver à comunidade um patrimônio cultural não apenas belo, mas acessível e fiel à sua trajetória.

A viabilização das obras de restauro e a remoção do risco iminente na edificação são passos cruciais para que o Convento Nossa Senhora da Conceição possa continuar a contar sua história. A cooperação entre a Irmandade Nossa Senhora da Conceição, provedora da proposta, e os diversos parceiros, incluindo a AEAI, é um testemunho do compromisso coletivo em resguardar este bem cultural para as futuras gerações, reforçando o papel de Itanhaém como guardiã de um patrimônio de valor inestimável.

Fonte: https://g1.globo.com

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