Um cenário antes considerado impensável no submundo do crime paulista começa a se materializar, com ecos de violência se espalhando pelo litoral norte do estado. Em 10 de dezembro do ano passado, a cidade de Ubatuba foi palco de um brutal homicídio duplo, onde um homem e um adolescente foram alvejados dentro de um veículo. O crime, um dos 24 assassinatos dolosos registrados no município em 2023 – quase o dobro dos 13 do ano anterior, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública – não seria apenas mais uma ocorrência isolada. Investigações apontam que a motivação por trás da tragédia é um confronto direto entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), uma disputa que, embora comum em outras regiões do Brasil, sinaliza uma reviravolta na histórica hegemonia criminosa em São Paulo.
A Erosão da Hegemonia: Por que o CV Incursiona em Território Paulista?
Por anos, o PCC foi tido como a força dominante e inquestionável no crime organizado paulista, ditando regras e mantendo a paz em seu território. Contudo, relatos de investigadores e pesquisadores à BBC News Brasil indicam que essa primazia está sendo desafiada. O Comando Vermelho, facção de origem carioca, tem expandido sua atuação para além das fronteiras fluminenses, fixando presença em áreas estratégicas de São Paulo. Duas regiões em particular se destacam: o litoral norte, como Ubatuba, próximo à divisa com o Rio de Janeiro, e a região de Piracicaba, mais ao interior do estado.
As Múltiplas Faces da Expansão Criminosa
A emergência do Comando Vermelho em solo paulista não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma confluência de fatores. De um lado, está o processo natural de expansão nacional do próprio CV, que busca consolidar sua influência em novos mercados e rotas. De outro, a própria evolução do PCC, que, ao longo de três décadas, transformou-se de uma associação de detentos em uma vasta rede criminosa com interesses diversificados e de alto valor, tem contribuído para essa nova dinâmica.
O enriquecimento e a sofisticação dos negócios do PCC levaram a uma priorização do tráfico internacional de drogas e de operações em setores da economia legal, diminuindo o foco no varejo de drogas local. Essa abertura criou um vácuo de poder e oportunidade que o Comando Vermelho parece estar aproveitando. Adicionalmente, uma nova geração de jovens ingressando no crime frequentemente não se alinha à ideologia rígida, aos códigos de conduta e às regras do PCC, tornando-os mais suscetíveis a formar alianças ou a se juntar a grupos rivais, intensificando a complexidade do cenário criminal em São Paulo. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo foi procurada para comentar sobre o assunto, mas não houve retorno.
Do Varejo à Escala Global: A Metamorfose do PCC
O Primeiro Comando da Capital, nascido em um presídio de Taubaté há 30 anos, alcançou um patamar de organização e riqueza inimagináveis. Sua trajetória inclui o domínio do varejo de drogas em São Paulo, a expansão para outros estados e, mais recentemente, a consolidação no tráfico internacional e a infiltração em segmentos da economia legal, como o ramo de combustíveis e o setor financeiro, conforme revelado pela Operação Carbono Oculto. Um estudo recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) estima que o crime organizado faturou R$ 350 bilhões no país nos últimos três anos, e o PCC detém uma fatia considerável desse montante.
Essa diversificação de atividades, com ênfase no lucrativo tráfico internacional de drogas, alterou significativamente o foco estratégico da facção paulista. Segundo Lincoln Gakiya, promotor do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e integrante do Gaeco, o tráfico interno, ou 'varejo de drogas', passou a ser visto como um negócio de alto risco e baixa recompensa pelo PCC. Ele ilustra: 'O que os criminosos falam é que [o tráfico interno] dá mais trabalho pra eles e menos dinheiro. O risco de prisão é maior e, quando prende, eles têm que manter a família, têm que pagar advogado'. Em contraste, o tráfico internacional apresenta uma lucratividade 'infinitamente maior', com o risco principal sendo a apreensão da droga, já embutido no custo do negócio, e valores que podem variar de US$ 1.000 o quilo da cocaína no atacado para 35 mil euros na Europa, chegando a US$ 150 mil na Ásia e Oceania.
A reorientação estratégica do PCC para negócios mais lucrativos no exterior levou, em algumas localidades, ao abandono de pontos de venda de drogas, as chamadas 'biqueiras'. Uma fonte ligada às investigações na região do Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo confirma essa dinâmica: 'A partir do momento em que o PCC deixou, os traficantes aqui da região começaram a disputar os locais. De outro lado, o Comando Vermelho também viu ali oportunidade de expandir. Cooptou gente, mandou gente pra cá, enfim'. Essa lacuna de poder abriu as portas para a incursão e o recrutamento de novos membros pelo Comando Vermelho, alterando o equilíbrio de forças local.
O Novo Mapa de Influência: O Comando Vermelho em São Paulo
A presença da facção carioca em São Paulo não é uniforme e se manifesta de diferentes formas, especialmente em municípios do Vale do Paraíba, como Bananal, Cruzeiro, Lorena, e nas cidades litorâneas de Ubatuba e Caraguatatuba. Contudo, a atuação do Comando Vermelho nessas regiões nem sempre espelha o controle territorial armado e ostensivo característico de sua presença na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF), descreve essa área entre o Sul Fluminense e o Vale do Paraíba/Litoral Norte paulistas como uma 'zona de transição'. Nesta zona, a dinâmica de conflito não se baseia na superposição de grupos cr**** com controle territorial armado. Em vez disso, a presença do CV pode se dar através de alianças, cooptação de membros e disputas por pontos de venda de drogas, aproveitando-se das brechas deixadas pela mudança de foco do PCC, configurando um modelo de expansão mais fluido e adaptável às particularidades do território paulista.
Conclusão: Um Horizonte de Desafios para a Segurança Pública
Os recentes conflitos em Ubatuba são mais do que meros incidentes; eles são o sintoma de uma reconfiguração profunda no crime organizado de São Paulo. A mudança estratégica do PCC, que privilegiou a rentabilidade global em detrimento do controle microterritorial, aliada à capacidade de expansão do Comando Vermelho e à emergência de uma nova geração de criminosos, aponta para um cenário de maior instabilidade. A outrora inconteste hegemonia do PCC agora enfrenta um desafio direto, com potencial para redefinir as relações de poder no submundo paulista e apresentar novos e complexos desafios para as forças de segurança pública do estado, exigindo uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas criminosas para combater eficazmente esta nova realidade.
Fonte: https://g1.globo.com