A China tem intensificado seus esforços para construir uma infraestrutura financeira robusta no continente africano, visando diminuir a dependência do dólar americano nas transações comerciais. Esta iniciativa estratégica busca facilitar o intercâmbio de bens e serviços utilizando diretamente moedas africanas e o yuan chinês (também conhecido como renminbi). Embora essas mudanças representem um avanço significativo na política externa chinesa, o uso do yuan ainda é incipiente na África, e a completa 'desdolarização' permanece um objetivo distante, inclusive para as autoridades de Pequim, que adotam uma abordagem cautelosa.
Parcerias Estratégicas Ampliam o Alcance do Yuan
Um marco recente nessa estratégia ocorreu no final de junho, quando o Banco Central da China concedeu autorização para pagamentos diretos em yuan através do Standard Bank, o maior grupo bancário da África, sediado na África do Sul. Esta colaboração, firmada com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), posiciona o Standard Bank, presente em 21 países africanos, de forma única. O grupo sul-africano declarou que a parceria permitirá que empresas realizem e recebam pagamentos em renminbi para liquidações comerciais, simplificando e dinamizando o comércio bilateral entre a África e a China. Este movimento é contextualizado pela China ser, desde 2009, o principal parceiro comercial da África, com um crescimento médio anual de 14% no comércio entre 2000 e 2024, segundo a Administração Geral de Alfândegas (GAC) chinesa. Adicionalmente, em 1º de maio, a China isentou tarifas de importação para produtos africanos, uma medida que promete impulsionar ainda mais esse relacionamento econômico.
O Yuan: Um Caminho Lento para a Internacionalização
Apesar do entusiasmo com as novas parcerias, o analista geopolítico Marco Fernandes, do Conselho Popular do Brics, avalia que a expansão do yuan na África é ainda modesta. Ele enfatiza que, embora a China esteja construindo uma infraestrutura capaz de operar sem o dólar, o volume de transações em yuan globalmente ainda é pequeno em comparação com o tamanho da economia mundial. Fernandes compara o processo à 'construção dos trilhos para o trem-bala chinês passar no futuro', sugerindo um avanço gradual e de longo prazo. Atualmente, o yuan é a quinta moeda mais utilizada no comércio internacional, respondendo por cerca de 8,5% das transações globais. Esse percentual, embora crescente em relação a anos anteriores, ainda é significativamente inferior ao do dólar, que permanece dominante nas negociações de commodities essenciais como energia e alimentos em todo o mundo.
A Complexidade da Desdolarização e a Posição Chinesa
A 'desdolarização' da economia mundial é uma pauta central do grupo BRICS, que inclui países do Sul Global como Brasil, China, Índia e África do Sul. O objetivo é reduzir as vantagens econômicas e políticas que o uso do dólar como moeda de reserva internacional confere aos Estados Unidos. No entanto, a posição da China nesse debate é mais matizada. Marco Fernandes, também editor da revista Wenhua Zongheng International, explica que Pequim não demonstra interesse em uma desdolarização abrupta. Um dos motivos reside nas vastas reservas chinesas denominadas em dólares. Além disso, a China busca manter a estabilidade do valor de sua moeda para preservar a competitividade de suas exportações. Outra questão crucial é a relutância em abrir completamente sua conta de capitais, uma medida vista como necessária para a plena internacionalização do yuan, a fim de proteger seu sistema financeiro da volatilidade e especulação global. Portanto, uma desvalorização rápida do dólar representaria um prejuízo considerável para o Estado e as empresas chinesas, justificando uma abordagem lenta, gradual e segura para qualquer movimento nesse sentido.
Propostas para uma Nova Ordem Monetária Internacional
Em meio a essa discussão, surgem propostas para alternativas ao atual sistema monetário. O economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do banco do BRICS, publicou em junho um artigo propondo a criação de uma nova moeda de reserva para o comércio internacional. Nogueira Batista reconhece a crescente influência da rede de pagamentos do Banco Popular da China (PBOC), que conecta mais de 40 bancos centrais e amplia o papel do yuan nas operações de liquidação comercial. Contudo, ele concorda que a substituição completa do dólar pelo yuan não atende, neste momento, aos interesses da economia chinesa. Em vez disso, o especialista sugere a criação de uma moeda global própria, baseada em uma 'cesta' de moedas dos países do Sul Global. Essa unidade de conta inicial seria convertida, em um segundo momento, em uma nova moeda, mantendo as mesmas ponderações. Para analistas como Marco Fernandes, a desdolarização é crucial para promover uma economia mundial mais justa e para redistribuir o poder global, diminuindo a hegemonia de uma única nação sobre o sistema financeiro internacional.
Conclusão: Um Horizonte de Múltiplas Moedas
A estratégia da China na África reflete uma visão de longo prazo para um sistema financeiro global mais diversificado e menos centralizado no dólar. Ao investir na infraestrutura de pagamentos e promover o uso do yuan e moedas locais, Pequim está pavimentando o caminho para um futuro onde múltiplos polos monetários coexistam. Embora a transição seja complexa e exija cautela, dadas as interconexões da economia global e os próprios interesses chineses, os movimentos atuais indicam um esforço persistente para reequilibrar as forças econômicas. As discussões sobre a desdolarização e a busca por alternativas monetárias ressaltam uma crescente demanda por maior equidade e resiliência no comércio internacional, moldando progressivamente o panorama financeiro do século XXI.