A oposta Tifanny, figura proeminente do voleibol brasileiro e primeira atleta transgênero a disputar a Superliga, pronunciou-se veementemente contra a recém-anunciada política de elegibilidade da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV). A nova diretriz restringe a participação em competições femininas apenas a atletas cujo sexo biológico foi designado como feminino ao nascer, levando Tifanny a classificar a medida como um "enorme retrocesso" para a inclusão no esporte. A jogadora, que defende o Osasco São Cristóvão Saúde, garantiu que não abandonará sua carreira, prometendo lutar por seus direitos e os de outras pessoas trans.
A Nova Política da CBV e Seus Critérios de Elegibilidade
Divulgada pela CBV na última sexta-feira (14), a nova regra estabelece que, para competir na categoria feminina do vôlei brasileiro, as atletas devem ter sido designadas com o sexo feminino ao nascer. Este critério marca uma mudança significativa em relação às diretrizes anteriores, que permitiam a participação de mulheres trans desde que seus níveis de testosterona sérica estivessem abaixo de um limite específico.
A confederação justificou a alteração afirmando que busca alinhar-se às normativas do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da Federação Internacional de Voleibol (FIVB). Conforme a nova política, um dos requisitos essenciais para a elegibilidade das atletas inclui a apresentação de um resultado negativo para o gene SRY, que é associado ao desenvolvimento do sexo masculino. Essa determinação passará a valer imediatamente para as edições deste ano da Superliga (em ambas as divisões), Supercopa e Copa Brasil, além de ser aplicada ao Circuito Brasileiro de vôlei de praia a partir de 2027.
O Voto de Tifanny e a Defesa da Inclusão no Esporte
Com 41 anos e uma trajetória pioneira, Tifanny, que atua no vôlei feminino desde 2017 e foi a primeira mulher trans a sagrar-se campeã da Superliga em 2025, utilizou sua assessoria de imprensa no Osasco para expressar sua indignação. Em seu pronunciamento, ela ressaltou que a decisão da CBV atinge muito além de sua pessoa, impactando seu clube, os patrocinadores, a torcida, e as inúmeras pessoas que nela se inspiram, além de ferir o direito fundamental de todas as pessoas trans à prática esportiva.
A oposta fez uma dura comparação com métodos de verificação de gênero do passado. "É um enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e pela inclusão. Voltamos para a forma vexatória como se testavam as atletas nos anos 60 e 70", declarou, evidenciando a percepção de um recuo nas conquistas de direitos. Enfatizando sua determinação, Tifanny concluiu: "Não vou me calar e vou tomar todas as medidas possíveis para que a minha luta pelo direito à visibilidade, à inclusão e à prática do esporte não tenha sido em vão."
Cenário Temporário no Campeonato Paulista e as Próximas Etapas
O pronunciamento da atleta ocorreu logo após a estreia do Osasco no Campeonato Paulista, que aconteceu no último sábado (15) no Ginásio José Liberatti, contra o Pinheiros. Apesar de Tifanny ter sido um dos destaques da partida, anotando 19 pontos e sendo bastante ovacionada pela torcida osasquense, sua equipe acabou derrotada por 3 sets a 2.
A participação da oposta neste jogo, mesmo com o anúncio da nova regra da CBV, foi possível devido à postura da Federação Paulista de Volleyball (FPV). A entidade optou por manter o regulamento em vigor desde o início do torneio para a disputa estadual. No entanto, a FPV informou que "eventuais medidas" serão consideradas e tomadas para futuras competições, após uma análise aprofundada das áreas jurídica e de saúde da federação, indicando que a situação pode mudar em breve.
A controvérsia gerada pela nova política da CBV e a firme posição de Tifanny acendem um debate crucial sobre inclusão, direitos humanos e o futuro de atletas transgênero no esporte de alto rendimento. A luta da jogadora, que transcende as quadras, agora se volta para garantir que o amor pelo voleibol e o direito à profissão não sejam cerceados por regulamentos que ela e muitos consideram excludentes e prejudiciais ao progresso social.