Em um marco histórico para a cultura brasileira, a SP Escola de Teatro, localizada na Praça Roosevelt, em São Paulo, sedia o primeiro Festival de Teatro Trans e Travesti do Brasil. O evento, que acontece de terça-feira (27) a sábado (31), oferece uma programação intensa e gratuita de espetáculos, performances e palestras, todas focadas em dar voz e visibilidade à rica vivência de mulheres transexuais e travestis através da arte.
Um Gesto de Reconhecimento e Resistência Artística
Este festival pioneiro emerge como um espaço crucial para o reconhecimento e a valorização de artistas trans e travestis, cujas pesquisas e produções teatrais, muitas vezes marginalizadas, possuem um rigor e uma profundidade admiráveis. A iniciativa, que integra a programação do 14º SP Transvisão, visa não apenas entreter, mas também promover ações educativas essenciais para o enfrentamento da LGBTFobia e a construção de uma sociedade mais inclusiva.
Luh Maza, diretora artística do FestivaTrans, expressa o desejo de que o público em geral – independentemente de sua orientação sexual – possa acessar e aplaudir a potência desses trabalhos. Ela enfatiza o caráter de fomento e aplauso a uma pesquisa continuada no teatro. Complementando essa visão, a produtora cultural Paola Valentina Xavier descreve o festival como um ato de resistência e renascimento. Para ela, cada apresentação e cada corpo em cena transcende séculos de silenciamento, convertendo dor em arte e exclusão em presença, escrevendo uma nova dramaturgia onde o próprio existir já é um ato poético e político.
Diversidade de Formatos e Abordagens no Palco
A programação do FestivaTrans se destaca pela amplitude e originalidade dos formatos artísticos apresentados, explorando diferentes linguagens para dialogar com o público. Cada noite, sempre às 19h, oferece uma imersão em narrativas diversas, com a presença de atrizes trans aclamadas no cenário atual. Entre os destaques, performances como a de Flow Kountouriotis em “Encarnación” e o ensaio aberto “Todas elas em mim”, de Clodd Dias, um tocante tributo à força e resiliência da mulher negra e trans, mediados por nomes como Ave Terrena Alves e Renata Carvalho, respectivamente, prometem instigar o pensamento e a emoção.
A Imersão em 'Transpreto'
Um dos pontos altos do evento é a performance “Transpreto”, idealizada pela própria diretora Luh Maza. A obra singular mescla auto-ficção, música e debate, convidando a plateia a um estado de transe. Luh Maza conduz uma palestra performática, conversando diretamente com o público sobre suas experiências em um corpo socialmente marcado pela transgeneridade e pela pretitude. Ela busca gerar inquietações e provocações, fomentando um diálogo profundo e reflexivo. A experiência é enriquecida pela performance musical do DJ King de Shango, um homem transmasculino que explora sonoridades afro-diaspóricas, criando uma atmosfera imersiva que convida à concentração e à introspecção em um mundo de distrações rápidas.
Outras Obras Marcantes
Além de “Transpreto”, o festival oferece outros espetáculos de grande relevância, como o “Manifesto Transpofágico”, de Renata Carvalho, que corajosamente questiona estereótipos sobre corpos travestis, com mediação de Fabia Mirassos. No encerramento, “Bendita Sois Entre as Mulheres”, de Renata Peron, narra uma poderosa história de superação e resistência de uma mulher trans, com mediação de Luh Maza. Todos os trabalhos são apresentados com mediação de figuras importantes do cenário cultural e ativista, enriquecendo o debate após as apresentações.
Informações e Acesso ao Festival
Todas as atividades do 1º FestivaTrans são gratuitas e acontecem na unidade Roosevelt da SP Escola de Teatro, localizada na Praça Roosevelt, 210. Os ingressos para assistir aos espetáculos e participar das rodas de conversa estão disponíveis para retirada no site Sympla. O evento representa uma oportunidade ímpar para o grande público conhecer e celebrar a diversidade e a excelência do teatro produzido por artistas trans e travestis no Brasil.