O cenário do jornalismo brasileiro, em especial o jurídico, lamenta profundamente o falecimento de Márcio Chaer, aos 71 anos, neste sábado (3) em São Paulo. Reconhecido como um dos grandes pioneiros na cobertura especializada do Poder Judiciário no país, Chaer foi o fundador da influente revista eletrônica Consultor Jurídico (ConJur), deixando um legado indelével que transformou a forma como a Justiça é noticiada e compreendida no Brasil.
A Semente da Inovação: A Criação do Consultor Jurídico
A trajetória profissional de Márcio Chaer, que antes de sua iniciativa visionária passou por grandes redações, culminou em 1997 com a fundação do ConJur. Em um período onde a internet ainda dava seus primeiros passos no Brasil e o acompanhamento dos tribunais era esporádico pela mídia tradicional, Chaer apostou em um modelo audacioso: uma cobertura diária e aprofundada das decisões judiciais, da atuação dos tribunais e dos debates jurídicos. Essa inovação não apenas preencheu uma lacuna, mas também estabeleceu a publicação como uma referência nacional incontornável para profissionais do Direito e todos os interessados na dinâmica da Justiça.
Expandindo Horizontes: A Evolução da Cobertura e o Anuário da Justiça
Ao longo de quase três décadas, sob a liderança de Chaer, o ConJur expandiu sua relevância, notabilizando-se por uma cobertura abrangente que incluía tribunais superiores, escritórios de advocacia, o Ministério Público e temas cruciais de legislação e jurisprudência. A publicação se destacou pela prática de divulgar a íntegra de decisões judiciais e por abrir um espaço plural para artigos e opiniões, permitindo que diferentes visões sobre o Direito fossem apresentadas e debatidas. Em 2007, seu projeto editorial foi ampliado com a criação do Anuário da Justiça, uma publicação fundamental que consolida perfis de tribunais e magistrados, além de analisar as tendências da jurisprudência brasileira. Este material tornou-se uma ferramenta indispensável para advogados, juízes e pesquisadores, cimentando o papel de Chaer como um democratizador da informação jurídica.
Uma Perda Repentina e o Luto Nacional
As circunstâncias da morte de Márcio Chaer acrescentam um elemento trágico à sua partida. Ele passou mal no Centro de São Paulo, após perseguir um homem que havia roubado seu celular, com a suspeita inicial indicando um infarto. A polícia investiga os detalhes do ocorrido. A notícia de seu falecimento gerou uma imediata e vasta repercussão entre autoridades, magistrados, advogados e jornalistas, não apenas pela chocante forma como se deu, mas principalmente pela magnitude de sua contribuição ao jornalismo e ao universo jurídico brasileiro.
O Reconhecimento de um Legado: Homenagens de Autoridades
A partida de Márcio Chaer provocou uma onda de pesar e homenagens de figuras proeminentes do cenário político e jurídico do Brasil. O Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, expressou tristeza e classificou Chaer como um 'defensor inegociável do Estado Democrático de Direito', elogiando sua coragem e o sentimento de justiça que pautou seu trabalho, inclusive ao abrir espaço para críticas durante o período da Lava Jato. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ministro Edson Fachin, ressaltou o legado duradouro de Chaer, o papel pioneiro do ConJur na aproximação do Direito com a sociedade e o marco que o Anuário da Justiça representa para a compreensão do Judiciário. O Ministro Gilmar Mendes, também do STF, lamentou profundamente a perda de 'um dos pioneiros do jornalismo especializado em assuntos jurídicos', que 'democratizou o acesso às informações sobre o Judiciário' e cuja atuação foi marcada pela independência e defesa das instituições democráticas. Já o Ministro Alexandre de Moraes enfatizou que Chaer representava 'o melhor do jornalismo' em um momento desafiador, destacando sua independência, competência e a defesa incansável do Estado Democrático de Direito.
Márcio Chaer não foi apenas um jornalista; ele foi um arquiteto do jornalismo jurídico, um visionário que, com sua fundação do ConJur e do Anuário da Justiça, não só informou, mas também formou gerações de profissionais e aproximou o complexo universo jurídico do cidadão comum. Seu legado, como afirmou o jurista José Rogério Cruz e Tucci, é sinônimo de um jornalismo técnico, plural e independente, valores que continuarão a ecoar e inspirar no panorama da comunicação brasileira. Sua ausência é uma perda imensurável para o campo que ajudou a moldar e para a defesa constante da informação de qualidade e do Estado Democrático de Direito.
Fonte: https://g1.globo.com