A vida de Juary Jorge dos Santos Filho, um nome outrora sinônimo de glória nos gramados, tomou um novo rumo. Aos 67 anos, o ex-atacante que ergueu a taça da Champions League e brilhou ao lado de Pelé, hoje encontra propósito e ânimo na Baixada Santista, atuando como motorista de aplicativo. Essa transição, impulsionada por uma batalha pessoal contra a depressão, revela a resiliência de um ídolo do futebol que, longe dos holofotes, redescobre-se em uma rotina que lhe oferece bem-estar e contato humano.
O Legado de um 'Menino da Vila' e o Brilho nos Gramados Nacionais
Nascido em São João de Meriti (RJ), Juary desembarcou em Santos (SP) aos 14 anos, iniciando sua trajetória no futebol nas categorias de base do Santos Futebol Clube. Sua dedicação rapidamente o alçou ao elenco principal, onde se tornou uma peça fundamental da lendária geração conhecida como 'Meninos da Vila'. Vestindo a camisa 9 do Peixe, disputou 229 partidas e marcou 101 gols, consolidando-se como o quinto maior artilheiro do clube na era pós-Pelé.
Momentos históricos pontuaram sua passagem pelo alvinegro praiano. Em 1977, teve a honra de participar do amistoso entre New York Cosmos e Santos, que marcou a despedida profissional de Pelé. No ano seguinte, Juary foi protagonista e artilheiro do time com 29 gols na campanha vitoriosa que culminou no título do Campeonato Paulista. Em depoimento, o ex-jogador expressa profunda gratidão: "Tive uma grande carreira e serei sempre grato. Primeiro, a Deus por ter me emprestado o dom de jogar futebol, e depois a este grande clube chamado Santos Futebol Clube por ter me aberto as portas e ter me dado a primeira oportunidade da minha vida".
Glórias Europeias: O Gol da Champions e a Conquista Mundial
A carreira de Juary transcendeu as fronteiras brasileiras. Suas dancinhas irreverentes ao redor da bandeirinha de escanteio, marca registrada de suas comemorações, encantaram torcidas em diversos países. Ele defendeu clubes como o Universidad Guadalajara, no México, e uma série de equipes italianas, incluindo Avellino, Inter de Milão, Ascoli e Cremonese.
O auge de sua jornada internacional, contudo, foi alcançado em Portugal, vestindo a camisa do Futebol Clube do Porto. Na temporada de 1986/1987, Juary eternizou seu nome na história do futebol europeu ao marcar o gol decisivo na final da Liga dos Campeões da UEFA contra o Bayern de Munique, garantindo o prestigiado título para o clube português. Ainda naquele ano, o ex-jogador adicionou outro troféu de peso à sua coleção, conquistando o Mundial de Clubes em uma memorável vitória sobre o Peñarol, do Uruguai.
Após o sucesso europeu, Juary retornou ao Brasil em 1988 para atuar pela Portuguesa de Desportos. Em 1989, teve uma breve passagem de volta ao Santos e encerrou sua carreira profissional em 1990, após defender o Moto Club do Maranhão. Sua ligação com o futebol permaneceu, trabalhando nas categorias de base do Santos em 2015 e, posteriormente, como treinador do time MK, em Curitiba.
A Batalha Silenciosa e a Redescoberta ao Volante
No início deste ano, uma nova e inesperada fase se apresentou na vida de Juary. Após decidir dedicar mais tempo à família, começou a sentir os primeiros sintomas da depressão, uma condição de saúde mental que o tirou de sua rotina e ânimo. "Quando dei conta, já não tinha força para fazer mais nada. Levantava da cama às 10h da manhã, ia para o sofá na frente da televisão, e só saía dali por volta das 3h da manhã. Não tinha vontade para nada e não queria ver ninguém. Só queria ficar sozinho", relatou o ex-atleta, descrevendo o profundo impacto da doença em sua vida.
A reviravolta veio há cerca de dois meses, por incentivo da esposa e dos filhos. Diante de poucas opções de trabalho aos 67 anos, Juary cedeu à sugestão de se tornar motorista de aplicativo. O que começou como uma necessidade, transformou-se em uma nova paixão e uma ferramenta poderosa no combate à depressão. "Eu gosto muito de dirigir e acabei cedendo à vontade deles. Agora, quem não quer mais abandonar sou eu", afirmou, revelando o prazer encontrado na nova atividade.
Trabalhando de segunda a sábado, Juary leva a esposa ao trabalho e, em seguida, inicia suas corridas. Essa rotina, que ele adapta à sua disposição, tem sido fundamental para trazer de volta o ânimo e a interação social. O contato com os passageiros, inclusive, já rendeu momentos emocionantes. "Ela não acreditava e dizia que era fã do Juary, que achava ele um grande jogador e gostava muito de ver ele jogar. Ela ficou muito emocionada dentro do carro", contou, relembrando o reconhecimento de uma passageira que o marcou profundamente.
Compreendendo a Depressão: Um Olhar Necessário sobre a Saúde Mental
A depressão, condição enfrentada por Juary, é um transtorno de humor complexo que afeta milhões de pessoas globalmente. Não se trata apenas de tristeza passageira, mas de uma doença mental que impacta profundamente o humor, os pensamentos e até mesmo o funcionamento físico do corpo. Especialistas explicam que o humor é uma função essencial do organismo, responsável por dar 'tom' e 'colorido afetivo' às experiências, e quando essa função adoece, pode manifestar-se como depressão.
Os critérios centrais para o diagnóstico da depressão incluem um humor persistentemente triste e a anedonia, que é a diminuição ou ausência de interesse e prazer em atividades que antes eram prazerosas. De acordo com o Ministério da Saúde, fatores como genética, desequilíbrios bioquímicos cerebrais e eventos traumáticos estão entre as principais causas que podem desencadear a condição. A história de Juary ressalta a importância de reconhecer os sintomas e buscar caminhos para o tratamento e a recuperação, que muitas vezes envolvem redes de apoio e a redescoberta de atividades significativas.
A jornada de Juary Jorge dos Santos Filho é um testemunho de superação e resiliência. De artilheiro lendário e campeão europeu a motorista de aplicativo, ele demonstra que a busca por bem-estar e propósito pode se manifestar de formas diversas, mesmo diante dos desafios mais íntimos. Sua história inspira não apenas pela glória do passado, mas pela coragem de enfrentar a depressão e encontrar um novo sentido na vida cotidiana, mostrando que sempre há um novo caminho a ser dirigido.
Fonte: https://g1.globo.com