Jovem Absolvido Após 74 Dias de Prisão Alega Tentativa de Recuperar Objeto Roubado e Levanta Debate Racial

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Após um período de 74 dias de detenção, Wesley de Andrade Ribeiro, de 18 anos, foi finalmente absolvido das acusações de roubo e corrupção de menores pela Justiça de Praia Grande, no litoral paulista. O jovem, que havia sido preso em 8 de março, teve sua liberdade restaurada após a 1ª Vara Criminal local concluir a insuficiência de provas para sustentar uma condenação. Emocionado, Wesley compartilhou com a reportagem a convicção de que a cor de sua pele foi um fator determinante para sua prisão e o tempo que passou atrás das grades, levantando uma séria reflexão sobre o racismo estrutural.

A Decisão Judicial e os Questionamentos Processuais

A sentença de absolvição, proferida em 22 de maio pelo juiz Rhuan Dergley da Silva, ressaltou falhas significativas no processo de reconhecimento dos suspeitos. O magistrado apontou que o procedimento, realizado logo após a abordagem da Guarda Civil Municipal (GCM), não seguiu as cautelas legais rigorosas, fragilizando a validade da identificação. A vítima, conforme a decisão, não conseguiu especificar qual dos indivíduos havia puxado a corrente, um detalhe crucial para a caracterização do delito.

Outro ponto vital para a absolvição foi o fato de que os guardas municipais não presenciaram o ato de roubo. A abordagem dos suspeitos ocorreu momentos depois da fuga, quando foram vistos correndo pela orla. Além disso, a busca pessoal não revelou nenhum objeto furtado em posse de Wesley ou do outro acusado no momento da detenção, com a corrente sendo localizada posteriormente na calçada, após a perseguição empreendida pela própria vítima. Diante da ausência de elementos probatórios contundentes, o juiz aplicou o princípio do “in dubio pro reo”, que favorece o réu quando há dúvidas razoáveis sobre sua culpa.

O Relato do Jovem e a Acusação de Racismo

Ao ser questionado sobre o ocorrido, Wesley reiterou sua versão inicial de que estava, na verdade, tentando ajudar a recuperar a corrente de ouro roubada. Sua declaração, de que ele corria atrás dos criminosos com essa intenção, contrastava com as acusações de roubo. O jovem expressou não ter esperado a absolvição, revelando um profundo sentimento de injustiça. Sua fala sobre a influência da cor da pele – “Tenho certeza de que, se eu tivesse nascido com uma cor mais clara, eu nunca passaria por essa situação” – adicionou uma dimensão social e racial ao caso, provocando uma necessária reflexão sobre a seletividade penal.

Detalhes do Incidente: O Roubo da Corrente

O crime que levou à prisão de Wesley ocorreu em 8 de março, na Avenida Presidente Castelo Branco, bairro Nova Mirim. A vítima, que estava na orla com sua filha, relatou ter sentido um puxão violento na corrente que usava no pescoço. Quatro pessoas foram vistas fugindo, parte de bicicleta e parte a pé, imediatamente após a ação. A vítima conseguiu perseguir os suspeitos e testemunhou um deles descartar a corrente no chão durante a fuga. O objeto, avaliado em R$ 1,8 mil, foi recuperado, embora o pingente tenha se perdido. Apesar de afirmar que olhava para o celular e não identificou o autor direto do puxão, a vítima sofreu lesões no pescoço e posteriormente reconheceu os indivíduos abordados pela GCM, mencionando que eles gritavam “vai, vamos” enquanto corriam.

Abordagem Policial e Divergências nos Depoimentos

De acordo com os depoimentos dos guardas municipais, a equipe avistou quatro pessoas correndo em alta velocidade durante patrulhamento na orla. A abordagem foi realizada pouco depois, e os suspeitos foram então apontados pela vítima. O boletim de ocorrência registrou que os adolescentes apreendidos confessaram participação no ato infracional, com um deles indicando o outro adolescente como o responsável por puxar a corrente. Contudo, Wesley e o outro acusado adulto mantiveram a negativa de envolvimento no roubo, afirmando em depoimento que apenas perseguiam os autores com a intenção de detê-los, o que se alinhava à sua versão de tentativa de recuperação do objeto roubado.

O Impacto da Prisão e a Busca por Recomeço

Wesley descreveu o momento em que soube que seria encaminhado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) como avassalador, um turbilhão de sentimentos e emoções. O período na prisão foi marcado pela dor de ver a família sofrer durante as visitas, com as grades simbolizando a barreira física e emocional. Apesar do trauma, o jovem demonstra resiliência e a intenção de retomar seus objetivos de vida. Ele afirmou que seus planos permanecem inalterados: prover o melhor para sua família, conquistar seus bens de forma lícita e construir um futuro sólido, sem se desviar dos valores que cultivava antes da injusta detenção. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) ainda não se manifestou sobre uma eventual intenção de recorrer da decisão absolutória.

Fonte: https://g1.globo.com

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