A cidade de Piracicaba, no interior de São Paulo, celebra um marco histórico e cultural neste sábado (15): o centenário da conclusão do atual edifício da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção. Este templo, cuja silhueta se destaca no horizonte piracicabano, foi finalizado em 1926 após 35 anos de intensas obras, consolidando-se como um ícone de fé e patrimônio arquitetônico. Contudo, sua trajetória é ainda mais antiga, remontando a 82 anos antes, com a visão de Miguel Arcanjo Benício Dutra, cujos restos mortais repousam em seu interior, e cuja história se entrelaça indissociavelmente à origem deste complexo religioso.
O centenário não apenas rememora a edificação de um símbolo de devoção, mas também reafirma sua importância como um dos bens tombados de Piracicaba, detentor do grau máximo de proteção patrimonial. Para marcar a data, uma Missa Solene está programada para o domingo (16), às 10h, a ser presidida pelo arcebispo Dom Antônio Emídio Vilar, e contará com a apresentação do Coro Sacro pela Camerata Paulista, prometendo um momento de profunda celebração e reverência.
Um Legado Enraizado: Da Primeira Capela à Doação Imperial
A história da Igreja da Boa Morte e Assunção começa com a figura multifacetada de Miguelzinho Dutra. Nascido em Itu e com significativa parte de sua vida dedicada a Piracicaba, Miguel Arcanjo Benício Dutra não era apenas um arquiteto e pintor, mas também um renomado entalhador, mestre na arte de esculpir e ornamentar a madeira. Foi ele quem concebeu e ergueu a primeira capela que deu origem ao atual complexo religioso, ainda no século XIX.
Em 1851, Miguelzinho Dutra fundou a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, responsável pela construção do primeiro centro religioso no local, entre 1853 e 1855. A relevância da igreja primitiva alcançou a própria Corte Imperial; em 1864, Dutra foi recebido pelo Imperador Dom Pedro II no Rio de Janeiro, de quem obteve uma doação de 100 mil réis, um valioso auxílio para as obras e manutenção do crescente templo.
A Ruptura do Fogo e a Gênese do Novo Edifício
Após um período de abandono, um evento cataclísmico redefiniu o destino do complexo religioso. Em 25 de janeiro de 1891, um incêndio de grandes proporções devastou o vizinho Colégio Nossa Senhora da Assunção e atingiu parte da igreja. Este desastre, embora trágico, marcou o início de um ambicioso projeto de reconstrução que levaria 35 anos para ser concluído, resultando na atual estrutura centenária.
Para a monumental tarefa de reerguer o colégio e a igreja, as Irmãs de São José de Chambéry contrataram o renomado arquiteto italiano Alberto Borelli. Seu estilo, classificado como eclético com forte influência neorrenascentista, foi fundamental para a integração harmoniosa de elementos do Renascimento e do Barroco na nova edificação, conferindo-lhe uma identidade arquitetônica única e rica em detalhes.
Harmonia Florentina e Riqueza Neorrenascentista
A inspiração para a majestosa cúpula da igreja é um tributo direto à arquitetura renascentista italiana, espelhando a icônica Igreja Santa Maria del Fiore, em Florença. Sua construção foi empreendida por Paulo Pecorari e seu sócio Romanini, este último tragicamente falecido ao cair de um andaime durante os trabalhos.
A fachada principal do edifício ecoa essa mesma referência renascentista, exibindo nichos, óculos, janelas em arcos plenos, molduras elaboradas e ordens de colunas. Esses elementos, utilizados de maneira fluida e livre da rigidez clássica, convergem para a classificação do edifício como Neorrenascentista, celebrando a estética do Renascimento italiano em solo piracicabano.
O Repouso Eterno do Idealizador na Parede Sacra
A memória de Miguel Arcanjo Benício Dutra, o visionário por trás da primeira capela, é eternizada de uma forma particular no interior da igreja. Seus restos mortais não estão em um túmulo exposto, mas sim sepultados dentro da parede dos fundos do templo. Esta era uma prática funerária comum à época, refletindo o desejo de proximidade perpétua com o local sagrado que ajudaram a edificar.
Uma placa comemorativa na parede identifica o sepultamento e fornece informações sobre o artista, garantindo que seu legado e sua conexão com as origens da igreja sejam preservados para as futuras gerações. É um testemunho silencioso da devoção e do trabalho incansável de um homem que moldou a identidade religiosa e cultural de Piracicaba.
Boa Morte e Assunção: Uma Dupla Devoção na História do Templo
O nome completo da igreja, Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, reflete uma história de dupla devoção e integração de identidades. A devoção à Nossa Senhora da Boa Morte remonta à fundação da Irmandade por Miguelzinho Dutra no século XIX, estabelecendo a primeira capela e centro religioso. Posteriormente, a inclusão de 'Assunção' ao título da igreja parece ter sido uma consequência natural da sua estreita ligação e reconstrução ao lado do Colégio Nossa Senhora da Assunção, após o incêndio de 1891.
Assim, o nome atual não apenas celebra duas importantes facetas da fé católica, mas também narra a fusão de histórias e a resiliência de uma comunidade que reergueu seu templo, mantendo viva a memória de seus primórdios e incorporando os novos capítulos de sua existência.
Um Monumento Vivo à Fé e à Cultura
Ao completar um século de sua estrutura atual, a Igreja Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção transcende sua função religiosa para se firmar como um pilar da história e da identidade cultural de Piracicaba. Sua arquitetura, que evoca a grandiosidade do Renascimento europeu, sua rica trajetória desde a idealização de Miguelzinho Dutra, e seu status de patrimônio tombado, a elevam à condição de um monumento vivo.
Mais do que um local de culto, é um repositório de memórias, um testemunho da capacidade humana de construir e reconstruir, e um farol de inspiração para as gerações presentes e futuras, celebrando a fé, a arte e a história que moldaram a alma de Piracicaba.
Fonte: https://g1.globo.com