O Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) revelou um panorama preocupante sobre os acidentes na região de Campinas: uma parcela significativa dos motoristas envolvidos em ocorrências já possuía um histórico de infrações de risco, sendo o excesso de velocidade a mais alarmante. Os dados indicam que quase 40% desses condutores já carregavam infrações prévias, sugerindo que muitos acidentes não são meros eventos isolados, mas o trágico desfecho de padrões de comportamento perigosos e negligentes.
A Persistência de Condutas de Risco no Trânsito
O levantamento do Detran-SP foi meticulosamente focado em condutores que, além de se envolverem em acidentes, apresentavam irregularidades em sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou um registro de infrações classificadas como de risco nos doze meses que antecederam o incidente. Esta análise permitiu traçar um perfil mais preciso dos motoristas com maior propensão a acidentes, revelando a recorrência de certas transgressões que desafiam a segurança viária.
O Dominante Excesso de Velocidade
Entre janeiro e março de 2026, no território de Campinas, o excesso de velocidade emergiu como a infração predominante nesse grupo, respondendo por impressionantes 86,4% das autuações de risco. Outras condutas imprudentes também foram identificadas, embora em menor escala, como o uso do celular ao volante, o avanço do sinal vermelho e a ausência do cinto de segurança, cada um com 3,7% das ocorrências, seguido pela falta do uso de capacete, que representou 2,5% das infrações registradas.
A Escalada da Reincidência e Seus Perigos
Além de catalogar os tipos de infração, o estudo aprofundou-se na frequência de reincidência entre os condutores acidentados. Os números são claros: aproximadamente 39% dos motoristas que se acidentaram já possuíam uma autuação de risco em seu histórico recente. A gravidade aumenta quando observamos que 33,3% desses condutores acumulavam duas infrações anteriores, e um alarmante 27,8% já haviam sido autuados três ou mais vezes antes de se envolverem no acidente. Este padrão ressalta que muitos motoristas persistem em comportamentos de alto risco, ignorando as advertências das autuações prévias.
Acidentes: Sintoma de um Problema Comportamental Mais Profundo
A análise dos dados é corroborada pela perspectiva de Luiz Vicente de Mello, especialista em mobilidade urbana. Ele enfatiza que o acidente de trânsito raramente é um acontecimento isolado. Pelo contrário, muitas vezes representa o ápice de uma série de condutas perigosas e negligentes que se acumulam ao longo do tempo. Segundo Mello, a proeminência do excesso de velocidade como principal fator se deve ao seu caráter recorrente, indicando uma falha na mudança de atitude mesmo após as autuações.
Diante desse cenário, Mello aponta a necessidade urgente de uma fiscalização mais assertiva e do uso estratégico da tecnologia. Ele sugere a implementação de sistemas de leitura automática de placas (ANPR) para cruzar dados e identificar proativamente veículos e motoristas com CNH vencida, suspensa ou cassada. A ausência de um controle rigoroso, alerta o especialista, alimenta a percepção de impunidade entre os condutores, incentivando a manutenção de comportamentos de risco que, em última instância, podem resultar em acidentes graves e perda de vidas.
Os resultados da pesquisa do Detran-SP, aliados à visão de especialistas, reforçam a ligação crítica entre um histórico de infrações de risco e o envolvimento em acidentes. O excesso de velocidade se destaca como um sinal persistente de desrespeito às normas, exigindo não apenas maior conscientização individual, mas também estratégias de fiscalização e tecnologia mais robustas para transformar o comportamento nas vias e, consequentemente, salvar vidas. A segurança no trânsito, portanto, depende de uma ação contínua e multifacetada para quebrar o ciclo da reincidência e da impunidade.
Fonte: https://g1.globo.com