De Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, para os prestigiados palcos da Escócia, o artista circense Guilherme Torres, de 28 anos, prepara-se para um marco significativo em sua carreira. Em agosto, ele embarca para Edimburgo, onde representará o Brasil no renomado Festival Fringe, o maior evento de artes cênicas do planeta, com seu espetáculo solo 'Vidrado'.
A jornada de Torres é um testemunho de resiliência e paixão, traçada entre o vibrante cotidiano de uma metrópole e a dedicação à arte circense, que agora o projeta para um público global, marcando sua estreia internacional em uma das vitrines culturais mais importantes do mundo.
A Conquista do Palco Global com 'Vidrado'
Guilherme Torres fará uma temporada de 11 apresentações de 'Vidrado' no teatro Assembly Roxy, a partir de 2 de agosto. O convite para integrar o Festival Fringe veio poucos dias após a bem-sucedida estreia de seu primeiro trabalho solo, que atualmente está em cartaz no Sesc Bom Retiro. Essa participação integra o São Paulo Showcase, uma iniciativa da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, destinada a promover produções paulistanas em eventos internacionais. A apresentação foi selecionada através do edital PNAB nº 34 e, embora seja o primeiro solo de Torres, contou com a valiosa colaboração de uma equipe criativa composta pelo diretor Adriano Mauriz e pelos artistas Ronaldo Aguiar, Carlos Alberto Gardim, João Alves e Leonardo Galdino.
O artista expressa grande entusiasmo com a oportunidade: “Acabei de estrear o espetáculo, então vai ser bem massa poder abrir essa porta lá fora, mostrar o meu trabalho e chegar com força. É um festival enorme, tem gente do mundo inteiro”, compartilha Torres, ciente da dimensão do desafio e da visibilidade que o evento oferece.
Raízes na Periferia e a Formação Artística
A trajetória de Guilherme no circo teve início em 2008, aos 10 anos, quando ingressou nas aulas do Centro Cultural Arte em Construção, um espaço vital criado pelo Instituto Pombas Urbanas em Cidade Tiradentes. Foi neste ambiente que ele se desenvolveu como artista, adquirindo as bases que moldariam sua carreira.
Em 2012, Torres foi um dos fundadores do Circo Teatro Palombar, grupo do qual é membro ativo até hoje. Sua conexão com a comunidade vai além da performance; ele também atuou como arte-educador no mesmo centro que o acolheu, retribuindo o conhecimento recebido. “Para mim, é um orgulho vir desse bairro e chegar onde eu estou chegando, porque foi bem difícil. Transporte, saúde, trabalho. Mas, ao mesmo tempo, é um bairro muito potente, tem muitos artistas aqui”, afirma, destacando a riqueza cultural e os desafios da região que o formou.
Das Ruas ao Teatro: A Escola da Experiência
Antes de poder dedicar-se exclusivamente à arte, Guilherme Torres buscou meios para financiar seus equipamentos e aprimorar sua técnica. Isso o levou a performar em espaços públicos não convencionais, como os faróis de São Paulo, o metrô e a movimentada Avenida Paulista. Essa experiência, segundo ele, foi crucial para sua formação artística.
“No palco, você está com um público que foi ali para te ver. No metrô e no farol, você atinge um público que não está ali por você. A galera está indo para o trabalho ou voltando cansada para casa. Às vezes é um sorriso ou uma troca de olhar que desmonta aquela pessoa”, analisa, sublinhando a capacidade de conexão com públicos inesperados. Embora reconheça os perigos e a falta de reconhecimento inerentes a essas apresentações, Torres ressalta a importância de mostrar seu trabalho com dignidade: “No farol você fica muito exposto, é perigoso… Ninguém é obrigado a gostar ou querer ver, mas é um trabalho e temos que seguir de cabeça erguida.”
'Vidrado': Acrobacias Sobre Rodas em Edimburgo
O espetáculo 'Vidrado' promete levar ao público do Fringe uma sequência desafiadora de acrobacias com bicicleta, exigindo grande preparo físico e técnica do artista. A dinâmica do Festival Fringe é intensa: os espetáculos acontecem diariamente, com Guilherme tendo apenas um dia de descanso durante sua temporada de 11 apresentações consecutivas. “Lá é um festival que a galera se apresenta todos os dias… o espetáculo é bem puxado”, comenta sobre a exigência física do show.
A complexidade logística do festival é notável, com apresentações que se estendem das 9h da manhã até a meia-noite, em um ritmo de constante rodízio de artistas. “Vai ser uma experiência bem doida”, prevê Torres. A viagem, hospedagem e alimentação do artista serão custeadas pelo São Paulo Showcase, enquanto a renda das apresentações dependerá da bilheteria, um modelo comum em um evento que oferece milhares de espetáculos simultaneamente.
A Força do Artista Brasileiro e a Conexão Comunitária
Ao longo de sua jornada, Guilherme enfrentou questionamentos sobre a viabilidade de viver da arte, mas nunca vacilou em sua convicção. “Teve uma época que pensei em ter um plano B. Mas quando comecei esse solo eu falei: esse é o plano A e o plano B. Eu vou com tudo”, declara, evidenciando sua determinação inabalável.
Para ele, a experiência internacional não é apenas sobre projeção pessoal, mas também sobre exaltar a potência da produção cultural brasileira. “Às vezes vão desacreditar, vão desmerecer, mas eu acho que o brasileiro é muito potente. A gente é acostumado a sofrer, mas tem uma alegria que só a gente tem”, reflete. Apesar da empolgação com o palco global, Guilherme reitera que apresentar seu trabalho em sua comunidade de origem, Cidade Tiradentes, possui o mesmo peso e importância. Sua jornada é um elo entre o local e o global, celebrando a arte como um caminho de superação e orgulho.
Fonte: https://g1.globo.com