Apesar de reconhecerem a gravidade de sinais como a presença de sangue nas fezes e alterações persistentes no funcionamento intestinal, muitos brasileiros ainda postergam a procura por assistência médica. Um levantamento recente revela que essa hesitação pode ter consequências sérias, especialmente no que tange ao câncer colorretal, uma das neoplasias mais incidentes no país.
Esses sintomas são indicativos primários da doença e demandam investigação imediata. A pesquisa, realizada pelo Hospital A. C. Camargo em parceria com a Nexus, entrevistou mais de 2 mil pessoas e acende um sinal de alerta sobre a lacuna entre a percepção de risco e a ação preventiva.
Lacuna entre Consciência e Ação Rápida
Os dados coletados pelo estudo indicam uma paradoxal realidade: oito em cada dez entrevistados estão cientes da potencial gravidade dos sintomas associados ao câncer colorretal, como sangramento nas fezes e mudanças no hábito intestinal por mais de um mês. Cerca de 67% concordam que tais sinais podem apontar para a doença, com 24% expressando forte concordância. Contudo, essa percepção não se traduz em agilidade na busca por auxílio profissional, já que quase metade dos participantes admite não procurar atendimento médico com a rapidez necessária.
A pesquisa aprofundou essa discrepância ao focar na reação a um sintoma específico: a presença de sangue nas fezes, relatada por 9% dos entrevistados. Deste grupo, 59% buscaram atendimento médico imediatamente. No entanto, uma parcela significativa de 40% não reagiu da mesma forma, revelando diferentes posturas: 19% optaram por esperar que o sintoma desaparecesse por si só; 10% aguardaram dias ou semanas antes de procurar um profissional; 7% recorreram a métodos alternativos como remédios caseiros ou modificações na dieta; 3% se automedicaram com produtos de farmácia; e 1% priorizou a busca por informações na internet antes de qualquer orientação profissional.
Desconhecimento Generalizado sobre o Exame de Sangue Oculto nas Fezes
Um dos achados mais preocupantes do levantamento é o extenso desconhecimento em relação à Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes (PSO), um exame fundamental para detectar precocemente a doença antes mesmo que os sintomas se manifestem de forma evidente. Dois terços dos entrevistados (67%) nunca ouviram falar desse procedimento, e apenas 11% já o realizaram. Outros 21% conhecem o exame, mas nunca o fizeram.
Essa falta de informação é ainda mais acentuada entre os jovens, atingindo 85% na faixa etária de 16 a 24 anos. Além disso, o desconhecimento supera a média geral em grupos específicos, como homens (76%), indivíduos com menor renda (73%) e aqueles com ensino fundamental incompleto (72%). A pesquisa também revela uma baixa familiaridade com a doença em si, com 75% dos entrevistados declarando não ter tido contato prévio com pacientes de câncer colorretal, enquanto apenas 21% conhecem alguém que já enfrentou a enfermidade (sendo 15% um parente próximo e 6% um amigo ou conhecido).
A Imperatividade do Diagnóstico Precoce e Exames Preventivos
Diante do crescente número de casos de câncer colorretal no Brasil, Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A. C. Camargo Cancer Center, enfatiza a importância de não ignorar sinais como sangramento, alterações persistentes no ritmo intestinal, dor abdominal contínua e perda de peso inexplicável. Ele reforça que a vigilância é crucial e pode ser um divisor de águas no prognóstico da doença.
Aguiar destaca ainda a necessidade de realizar exames preventivos a partir dos 45 anos, ou antes, dependendo da orientação médica e do histórico familiar. Ele sublinha que o diagnóstico precoce do câncer colorretal está diretamente associado a taxas de cura significativamente mais elevadas. Nesse contexto, exames simples como a Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes e a colonoscopia desempenham um papel vital na detecção da doença em seus estágios iniciais, aumentando exponencialmente as chances de sucesso do tratamento.
Panorama do Câncer Colorretal no Brasil
O câncer colorretal, que vitimou a cantora Preta Gil em julho do ano passado após dois anos de tratamento, figura como o segundo tumor com maior incidência entre os brasileiros. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) preveem 53.810 novos casos por ano para o triênio 2026-2028, evidenciando a urgência de campanhas de conscientização e acesso facilitado a exames preventivos. A magnitude desses números reforça a relevância de cada cidadão estar informado e proativo na manutenção de sua saúde.
Conclusão
A pesquisa do Hospital A. C. Camargo e da Nexus é um chamado à ação para a saúde pública e para a população em geral. A conscientização sobre os sintomas do câncer colorretal precisa ser acompanhada de uma mudança de comportamento, priorizando a busca por atendimento médico imediato e a realização de exames preventivos. Superar o desconhecimento sobre ferramentas diagnósticas simples e eficazes, como a Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes, é essencial para reverter o cenário atual de atrasos no diagnóstico, garantindo assim maiores chances de cura e uma melhor qualidade de vida para milhares de brasileiros.