A capital paulista foi palco, neste último domingo (29), da 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado. O evento reuniu centenas de pessoas, incluindo familiares e ativistas de direitos humanos, para um cortejo simbólico. A concentração inicial ocorreu em frente ao antigo prédio do DOI-Codi/SP, na rua Tutóia, local que marcou um dos principais centros de repressão e tortura durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), estabelecendo a fundação histórica para a denúncia contemporânea.
Caminho da Memória e a Conexão com o Presente
Organizado pelo Movimento Vozes do Silêncio, uma iniciativa conjunta do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política, o ato não se limitou a recordar os horrores do regime autoritário. Com o lema “aprender com o passado para construir o futuro”, a manifestação estabeleceu uma ponte direta entre os crimes históricos da ditadura e as contínuas violações de direitos humanos que permeiam o Brasil, mesmo após a redemocratização. O percurso seguiu pelas ruas da zona sul, sob escolta da Polícia Militar, culminando no Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, situado no Parque Ibirapuera, simbolizando a busca por reparação e o repúdio ao esquecimento.
O Legado Duradouro da Ditadura na Democracia Atual
Lorrane Rodrigues, coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, ressaltou a importância de desmistificar a percepção de que a ditadura é um capítulo isolado da história brasileira. Segundo ela, é crucial compreender os impactos desse período no cenário contemporâneo para edificar um futuro mais justo. A necessidade de fortalecer a democracia foi sublinhada, uma vez que a atual estrutura se mostra insuficiente e desigual para parcelas significativas da população. Para avançar no campo da memória, verdade e justiça, Lorrane destacou a relevância das 49 recomendações da Comissão Nacional da Verdade, que, lamentavelmente, têm sido pouco ou parcialmente cumpridas pelo Estado brasileiro desde seu lançamento, indicando um progresso lento e aquém do necessário.
Ameaças ao Estado Democrático de Direito e Novas Perspectivas Legais
Em um momento em que a defesa do Estado democrático de Direito enfrenta recorrentes ataques, Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, reiterou que a Caminhada do Silêncio surgiu como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às tentativas de silenciamento. Ele enfatizou que a ditadura militar legou ao país uma herança de impunidade, que se manifesta na violência estatal ainda presente. A participação de mais de 30 organizações da sociedade civil e movimentos sociais na edição deste ano reforçou a força coletiva do ato. Um ponto de destaque foi a discussão sobre a possibilidade, defendida pelo ministro Flávio Dino do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos de crimes permanentes, como a ocultação de cadáveres, sinalizando uma possível abertura para reinterpretações legais que buscam maior justiça e responsabilização.
O Manifesto: Silêncio que Clama por Justiça
Ao final da manifestação, o manifesto lido pela organização reafirmou que o silêncio dos participantes não denota ausência, mas sim uma presença viva, uma memória que resiste e uma voz que se recusa a esquecer. Partindo de um local histórico de dor e culminando em um monumento à memória, a caminhada reiterou que as vítimas da violência estatal não são meros ecos do passado, mas permanências que exigem reconhecimento e justiça. O ato, nascido da urgência de resistir a ameaças autoritárias reemergentes, continua a ser um lembrete veemente de que a vigilância democrática é incessante e que a luta por um futuro sem impunidade e violência de estado permanece fundamental.