Pelé, o Rei do Futebol, encantou o mundo com sua genialidade nos gramados, empilhando títulos e gols que o eternizaram como uma lenda. Contudo, por trás da figura pública e do Atleta do Século, existia Edson Arantes do Nascimento, um homem cujas camadas mais profundas eram conhecidas por um círculo extremamente restrito. José Fornos Rodrigues, carinhosamente conhecido como Pepito, foi talvez o mais íntimo desses confidentes, compartilhando mais de meio século de uma amizade que transcendeu os papéis de empresário e parceiro, tornando-o o melhor amigo e guardião de histórias inéditas. Agora, Pepito transforma essas memórias em um livro, prometendo revelar um lado de Pelé que, segundo ele, representa o seu eu mais grandioso: o Pelé fora de campo.
O Início de uma Amizade Inquebrantável
A longa jornada de cumplicidade entre Pepito e Edson Arantes do Nascimento, que se estendeu por mais de 50 anos, teve um início fortuito em 1962, quando José Fornos Rodrigues ainda atuava como músico profissional. A relação se aprofundaria significativamente a partir de 1967, quando Pepito foi trabalhar na Varig como promotor de vendas em Santos. Sua missão audaciosa era conquistar o contrato do Santos Futebol Clube para que a equipe viajasse com a companhia aérea. A persistência de Pepito rendeu frutos em junho de 1969, quando conseguiu fechar o acordo para uma viagem importante do clube à Itália, para um jogo da Recopa Mundial contra a Inter de Milão.
Como reconhecimento pelo êxito, a Varig concedeu a Pepito a oportunidade de acompanhar a delegação santista na Europa. A partir dessa viagem, a conexão com Pelé e o restante do time se consolidou. O Santos, satisfeito com o serviço, solicitou formalmente à Varig que Pepito fosse o acompanhante exclusivo em futuras viagens, solidificando sua presença constante ao lado do craque. Essa proximidade se transformaria em um convite formal em 1971, quando Pelé, após se despedir da seleção brasileira, convidou Pepito para trabalhar diretamente com ele, marcando o início de uma parceria profissional e pessoal indissolúvel.
“Pelé, o Legado Desconhecido”: Uma Janela para a Intimidade
O livro, intitulado “Pelé, o Legado Desconhecido”, é uma obra de 160 páginas dividida em 26 capítulos que abarcam a trajetória completa da amizade entre Pepito e o Rei, desde o primeiro contato em 1962 até o falecimento do ídolo em 2022, aos 82 anos, devido a um câncer de cólon. Lançado no Museu Pelé, em Santos (SP), o projeto nasceu de uma “livre e espontânea pressão” das filhas e da esposa de Pepito, que o incentivaram a registrar suas memórias. Elas reconheceram que ninguém conheceu Edson Arantes do Nascimento tão profundamente quanto ele. A condição imposta por Pepito para escrever foi clara: revelar o Pelé que existia fora das quatro linhas, uma vez que o jogador já era amplamente conhecido. Sua promessa é provar que o “melhor Pelé” estava na verdade distante dos holofotes dos campos.
A Generosidade Silenciosa do Atleta do Século
Apesar do carisma global que Pelé exibia, sendo reconhecido e admirado por pessoas de todas as idades e nacionalidades, Pepito enfatiza que o lado mais generoso do Atleta do Século permaneceu amplamente desconhecido durante sua vida. O amigo descreve um homem com “um coração maior que o Pacaembu”, revelando no livro diversas histórias de sua filantropia silenciosa. Entre os atos de bondade, Pelé financiou e construiu creches em Guarujá e São Vicente, no litoral paulista, além de manter um asilo. Ele também ofereceu dezenas de bolsas de estudo em universidades e custeou passagens e hospedagens para pessoas com doenças graves que precisavam de tratamento fora de suas cidades de origem, demonstrando um altruísmo discreto e contínuo.
Edson, o Homem: Teimosia e Fraternidade Verdadeira
A convivência fraternal de mais de cinco décadas com Pelé permitiu a Pepito conhecer o Edson por trás do mito. Ele revela que, apesar de nunca brigarem, as discussões eram frequentes, pois Pepito fazia questão de dizer o que o amigo precisava ouvir, e não apenas o que gostaria. Essa franqueza, permeada pela teimosia de Pelé, era uma marca registrada da relação, fundamentada no respeito e na autenticidade. Para Pepito, a figura que ele tratava não era o Pelé, mas sim o Edson, o amigo com suas qualidades e falhas humanas. Ele acredita que, após a leitura do livro, as pessoas terão uma nova perspectiva sobre o ídolo, percebendo o quão gigante ele foi não apenas em suas conquistas esportivas, mas também em sua essência humana e no impacto positivo que gerou silenciosamente.