A recente edição da Rio Fashion Week não apenas exibiu as tendências da moda carioca, mas também reacendeu um debate crucial sobre o futuro das passarelas. A discussão central girou em torno da crescente presença de influenciadores digitais, que parecem estar, em algumas situações, redefinindo o papel tradicional dos modelos e alterando a dinâmica dos desfiles.
A Nova Estética da Passarela: Desfiles que Quebram Paradigmas
O desfile da BlueMan, em particular, tornou-se um marco dessa transformação. Longe dos moldes clássicos, a marca apostou em uma abordagem inovadora que celebrou a diversidade de corpos, incorporou elementos de dança e música, e ousou quebrar protocolos estabelecidos. Essa performance vibrante e inclusiva, amplificada pela presença de figuras digitais, contrastou fortemente com a linha mais tradicional seguida por grifes como Lenny Niemeyer, que encerrou o evento mantendo a estrutura convencional.
Tal movimento não é isolado no cenário fashion brasileiro. A São Paulo Fashion Week 2025 já havia sinalizado essa tendência, com a marca LED escalando influenciadores, subcelebridades e até ex-participantes de reality shows para estrelar seu desfile, evidenciando uma estratégia cada vez mais comum de buscar ressonância além dos círculos habituais da moda.
O Contraponto: Visibilidade Versus Valorização Profissional
Essa evolução, naturalmente, gera discussões polarizadas. De um lado, profissionais da moda, especialmente modelos, expressam preocupação com o que percebem como um sucateamento e desvalorização de uma carreira que exige técnica, preparação e experiência. Há o receio de que a busca por engajamento e alcance rápido ofusque o trabalho especializado da passarela.
Por outro lado, as marcas encontram na colaboração com influenciadores digitais uma poderosa ferramenta de marketing. A presença dessas personalidades garante não apenas maior visibilidade para as coleções, mas também a introdução de uma diversidade representativa, atingindo públicos mais amplos e variados que transcendem os entusiastas da moda tradicional, o que pode impulsionar o alcance e o impacto comercial das campanhas.
A Convergência de Papéis: Onde a Moda Encontra o Digital
A incorporação de influenciadores, seja na passarela ou na fila A, parece ser um caminho sem volta para a indústria. A questão central não reside em julgar se essa prática é inerentemente superior ou inferior, mas sim em reconhecer sua natureza distinta, como bem expressou o ícone carioca MC Marcinho. A eficácia dessa estratégia depende intrinsecamente da proposta de cada marca, da identidade da coleção e, crucialmente, da preparação que esses indivíduos recebem para apresentar as peças de forma coesa e profissional.
A premissa de que a apresentação não deve desviar o foco do produto principal, uma máxima presente no jornalismo, pode ser aplicada à moda: o foco primordial de um desfile deve permanecer nas roupas. Paralelamente, a fronteira entre a profissão de modelo e a de influenciador está se tornando cada vez mais tênue, com muitos modelos construindo suas próprias marcas pessoais nas redes sociais. Ignorar a influência e a capacidade de engajamento dessas figuras digitais no cenário contemporâneo é, portanto, uma tarefa cada vez mais inviável para qualquer marca que busca relevância e conexão com seu público.
Em suma, a moda brasileira, exemplificada pela Rio Fashion Week, está em um ponto de inflexão. A integração de influenciadores digitais na passarela não é apenas uma tendência passageira, mas um reflexo da digitalização e democratização da indústria. O desafio reside em equilibrar a busca por visibilidade e diversidade com a manutenção da integridade artística e profissional da moda, garantindo que a essência criativa das coleções continue a ser a protagonista, independentemente de quem as apresenta.
Fonte: https://jovempan.com.br