A decisão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de redirecionar seus planos políticos e buscar a reeleição no pleito de 2026, ao invés de uma pré-candidatura presidencial, desencadeou uma intensa disputa interna entre os partidos de sua base aliada. A vaga de vice-governador, peça-chave para a composição da chapa, tornou-se o epicentro de negociações e articulações que prometem moldar o cenário político paulista nos próximos anos.
Reeleição de Tarcísio e o Início da Disputa
A confirmação da intenção de Tarcísio de Freitas de permanecer no Palácio dos Bandeirantes abriu o tabuleiro eleitoral, colocando em evidência os diferentes interesses de seus parceiros partidários. Atualmente, o cargo de vice-governador é ocupado por Felício Ramuth (PSD), ex-prefeito de São José dos Campos, que assumiu a governadoria em diversas ocasiões durante as ausências do titular em viagens internacionais. No entanto, a perspectiva de uma nova eleição reacendeu as ambições de outras legendas e figuras proeminentes da aliança governista.
A Estratégia do PSD: Mantendo a Posição ou Alçando Novas Alturas
O Partido Social Democrático (PSD), ao qual Felício Ramuth é filiado, manifesta forte interesse em manter a posição. O presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, que atualmente exerce a função de secretário de governo na gestão Tarcísio, expressou publicamente seu 'privilégio' em ser cogitado para a chapa. Kassab, que em breve deixará o cargo para se dedicar às articulações políticas de seu partido, representa uma força política considerável, alavancada pela capilaridade do PSD, que se destacou nas últimas eleições municipais ao conquistar o maior número de prefeituras em São Paulo (206), superando outros aliados como PL (104), Republicanos (84), MDB (66) e PP (47). Essa vasta presença municipal é vista como um trunfo indispensável para a campanha de reeleição do governador. Contudo, há quem pondere internamente que a escolha de Kassab poderia, no longo prazo, desviar o foco da gestão para futuras ambições políticas do próprio vice.
PL no Ataque: O Peso da Bancada Legislativa
O Partido Liberal (PL), legenda ligada à família Bolsonaro, também se posiciona firmemente na disputa pela vice-governadoria. O presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), deputado estadual André do Prado, é o nome que o PL busca emplacar. Fontes parlamentares confirmaram que o presidente nacional do partido, Valdemar da Costa Neto, está empenhado em investir pesado para garantir a indicação de Prado. O argumento central do PL reside no fato de possuir a maior bancada de deputados estaduais na Alesp, sendo, segundo a legenda, imprescindível para a governabilidade e o suporte legislativo à administração de Tarcísio de Freitas.
MDB e as Ambições de Ricardo Nunes para 2030
O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) também entrou na corrida, vislumbrando o posto de vice para o atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. A estratégia emedebista é de longo prazo: com o término de seu segundo mandato como prefeito em 2028, Nunes estaria sem cargo e, portanto, poderia perder parte de sua influência política para uma eventual candidatura ao governo estadual em 2030. Os cálculos do MDB sugerem que a vice-governadoria o posicionaria para uma sucessão, assumindo a cadeira de governador caso Tarcísio, se reeleito e impedido de disputar um terceiro mandato, concorra à Presidência da República em 2030. Embora Nunes tenha declarado publicamente que concluiria seu mandato na prefeitura, ele deixou claro, em entrevista, que não negaria um pedido do governador. Entretanto, um fator complicador para essa articulação é a figura do atual vice-prefeito de São Paulo, Coronel Mello Araújo (PL), cuja atuação é apontada por auxiliares de Nunes como geradora de 'estragos irreversíveis' na administração municipal, devido à sua inexperiência e postura política.
O Dilema do Governador: Equilíbrio e Governabilidade
Internamente, o governador Tarcísio de Freitas tem sinalizado uma preferência pela manutenção de Felício Ramuth como seu vice. Essa opção seria uma forma de evitar desgastes e preservar a harmonia da ampla base aliada, que já se movimenta com intensidade. A escolha do vice-governador transcende a mera composição de chapa, envolvendo um delicado balanço entre a gratificação de aliados, a força eleitoral de cada partido e a necessidade de garantir uma governabilidade estável para um eventual segundo mandato. A complexidade da decisão reside em agradar a todos os setores de sua coalizão sem comprometer o foco na gestão após a reeleição.
A definição do companheiro de chapa de Tarcísio de Freitas para 2026 será, portanto, um reflexo do cuidadoso xadrez político que o governador precisará jogar. Entre a manutenção de uma parceria já estabelecida, a ascensão de novas forças políticas e as ambições de longo prazo de seus aliados, a escolha final demandará uma análise estratégica que concilie o sucesso eleitoral com a estabilidade e a governabilidade de São Paulo.
Fonte: https://g1.globo.com