Desigualdade Cresce: Região de Campinas Vê ‘Gangorra Social’ com Classe C em Expansão e Elite em Ascensão

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A Região Metropolitana de Campinas (RMC) se depara com um cenário de acentuada 'gangorra social', onde o avanço econômico não se distribui de maneira homogênea. Dados da pesquisa IPC Maps, que projeta o potencial de consumo das famílias para 2026, revelam um movimento díspar: enquanto a classe C, pressionada pelo custo de vida, expande sua base populacional, a classe B perde representatividade e a classe A, no topo da pirâmide de renda, demonstra um crescimento robusto, impulsionada por oportunidades em setores de maior valor agregado. Essa dinâmica, que se intensificou no último ano, aponta para uma polarização econômica com implicações significativas para o desenvolvimento regional.

A Dinâmica da 'Gangorra Social' na RMC

O levantamento do IPC Maps para 2026, que estima um total de 1.196.313 domicílios na RMC, um aumento de 1% em relação a 2025, ilustra essa mudança na composição social. O economista Eli Borochovicius, da PUC-Campinas, atribui as variações observadas ao contexto econômico atual, marcado pela pressão do custo de vida e pela crescente desigualdade na evolução da renda. Em linhas gerais, a base da população enfrenta maiores obstáculos para progredir, enquanto o segmento de alta renda consegue capitalizar oportunidades mais concentradas, criando um desequilíbrio notável na distribuição socioeconômica da região.

A Expansão da Classe C sob Pressão Econômica

A classe C, que abrange famílias com renda domiciliar média entre R$ 2,5 mil e R$ 4,5 mil, consolidou-se como a predominante na RMC, representando 52,1% do total de famílias. Seu crescimento, que levou o número de domicílios de 587.070 em 2025 para 623.097 em 2026 (um salto de 6,1%), é paradoxalmente impulsionado por dificuldades. Segundo Borochovicius, a expansão deste grupo reflete a incapacidade de muitas famílias em acompanhar a escalada dos preços de bens essenciais – como alimentos, combustíveis e medicamentos – e o impacto dos juros elevados. Embora muitos tenham mantido emprego e renda, o poder de compra não se expandiu na mesma proporção da inflação.

A economia da região de Campinas, fortemente baseada no setor de serviços (educação, saúde, comércio, tecnologia e logística), gera um grande número de empregos formais. Contudo, a remuneração média nesses segmentos é considerada relativamente baixa, o que limita o avanço da renda familiar. Este cenário é agravado pelo custo de vida mais alto em comparação com cidades menores do interior, dificultando a ascensão social para a classe C e até mesmo pressionando famílias da classe B a uma faixa de renda inferior.

Classe B em Retração e o Avanço da Elite

O Declínio da Classe Média Tradicional

Em contrapartida à ascensão da classe C, a classe B assistiu a uma notável retração. O total de domicílios nesta faixa de renda, que em 2025 era de 365.200, caiu para 328.295 em 2026, resultando em uma diminuição da sua participação nos domicílios urbanos de 30,9% para 27,4%. Essa perda de representatividade indica uma compressão da classe média tradicional, um fenômeno que se alinha à análise do economista sobre a dificuldade das famílias em manter ou ampliar seu poder aquisitivo frente ao cenário inflacionário e à estagnação salarial em determinados setores.

A Ascensão da Classe A

No extremo oposto, a classe A, composta por famílias com orçamento mensal superior a R$ 28,3 mil, registrou uma expressiva ampliação. O número de domicílios desta faixa saltou de 56.921 em 2025 para 66.930 em 2026, um crescimento de 17,5%. Essa expansão é atribuída, conforme Borochovicius, à capacidade de uma parcela restrita da população de aumentar renda e patrimônio. Este avanço é impulsionado por oportunidades concentradas em setores de alto valor agregado, como tecnologia de ponta, saúde privada especializada e cargos de liderança, que oferecem remunerações significativamente mais elevadas.

Paralelamente, a classe D/E também apresentou um ligeiro crescimento, passando de 174.586 para 177.991 domicílios urbanos, e sua participação percentual aumentou de 14,7% para 14,9%, refletindo a pressão nas camadas de renda mais baixas da população.

Radiografia do Potencial de Consumo na Região

A análise do potencial de consumo urbano na RMC revela que, entre 2025 e 2026, o valor total projetado aumentou 11,7%, saltando de R$ 172,1 bilhões para R$ 192,4 bilhões. Contudo, a distribuição desse potencial também reflete a polarização social. Embora a classe B ainda seja responsável pela maior movimentação financeira, com R$ 80,7 bilhões em consumo projetado, a classe A se destacou pelo maior salto relativo, registrando um aumento de 28,8% em seus gastos em comparação com o ano anterior.

Por outro lado, a classe C, apesar do crescimento numérico de seus domicílios, teve um ligeiro aumento no valor total de consumo (2,5%). No entanto, quando ajustado pelo aumento da quantidade de famílias, seu potencial de consumo per capita recuou em relação a 2025. Isso significa que, embora mais famílias estejam na classe C, o poder de compra individual ou por domicílio diminuiu, reforçando a ideia de que o crescimento desse grupo está atrelado à estagnação econômica de seus membros.

As categorias que mais concentram o consumo das famílias na RMC incluem: Habitação (R$ 52,59 bilhões), Veículo próprio (R$ 21,51 bilhões), Alimentação no domicílio (R$ 15,36 bilhões), Materiais de construção (R$ 7,91 bilhões), Plano de saúde/Tratamento médico e dentário (R$ 7,67 bilhões), Alimentação fora do domicílio (R$ 7,66 bilhões), Educação (R$ 6,69 bilhões), Medicamentos (R$ 5,82 bilhões), Higiene e Cuidados pessoais (R$ 5,30 bilhões) e Vestuário confeccionado (R$ 3,89 bilhões), evidenciando o peso dos gastos essenciais no orçamento familiar.

Conclusão: Desafios e Reflexões sobre a Desigualdade

O panorama traçado pelo IPC Maps para a Região Metropolitana de Campinas em 2026 expõe um aprofundamento da polarização social. A 'gangorra' entre as classes C e A, com a classe B encolhendo, não apenas redesenha a paisagem socioeconômica da região, mas também levanta questões cruciais sobre a sustentabilidade do desenvolvimento e a inclusão social. Enquanto uma parcela da população desfruta de avanços significativos, a maioria luta para manter o poder de compra em face de um custo de vida crescente e salários que não acompanham a inflação. Compreender e endereçar essas dinâmicas será fundamental para a formulação de políticas públicas e estratégias de desenvolvimento que busquem uma prosperidade mais equitativa na RMC.

Fonte: https://g1.globo.com

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