A Armadilha do Parcelamento: Como Estratégias de Consumo Impulsionam o Endividamento das Famílias Brasileiras

PUBLICIDADE

O cenário se tornou corriqueiro: ao finalizar uma compra diária, seja no supermercado, posto de gasolina ou farmácia, a oferta de parcelamento sem juros em poucas vezes parece uma vantagem irresistível. Consumidores, avaliando a proposta como benéfica, optam por adiar o pagamento de despesas que antes quitavam à vista ou em parcela única no cartão de crédito. Essa mudança de hábito, impulsionada por uma cultura de crédito fácil, está na raiz do crescente endividamento das famílias brasileiras, alertam especialistas.

A socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), observa que essa prática é cada vez mais difundida. "Estamos vendo muitas pessoas utilizando o crediário para pagar contas do orçamento mensal", aponta Marcolino, destacando a preocupante transformação do crédito em um complemento de renda para despesas ordinárias.

O Uso Indevido do Crédito: Uma Confusão Perigosa

O crédito, por sua natureza, deveria ser um facilitador para a aquisição de bens duráveis e de alto valor, cujo ciclo de vida útil justifique o parcelamento. No entanto, o que se observa é uma distorção: o recurso tem sido empregado para custear o dia a dia. Adriana Marcolino reitera a importância do crédito para "financiar bens de consumo duráveis e bens de maior valor", uma premissa frequentemente esquecida na tomada de decisões financeiras.

Um erro fundamental, segundo a economista Isabela Tavares, responsável pelo acompanhamento de crédito e endividamento da Consultoria Tendências, é a percepção equivocada de que o limite do cartão de crédito ou do cheque especial se soma à renda mensal. "Precisamos entender que o limite do cartão de crédito não é uma renda extra. Temos que conseguir pagar o cartão de crédito com o salário que recebemos no final do mês", explica Tavares, desmistificando a ideia de que um salário de R$ 5 mil e um limite de R$ 5 mil equivalem a uma renda de R$ 10 mil.

A Ansiedade de Consumo e a Influência da Publicidade

A facilidade de acesso ao crédito alimenta um fenômeno que a economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV) e analista da BRCG Consultoria, define como "ansiedade de consumo". Esse comportamento, que busca antecipar ao máximo o que se pode consumir, não se restringe a uma faixa de renda ou à compra de itens essenciais.

Hennings detalha que as decisões de compra são frequentemente ditadas por "estímulos" da publicidade, tanto nos meios tradicionais quanto nas recomendações de influenciadores digitais. "Há diversos apelos à compra, e as pessoas têm acesso ao crédito, o que viabiliza anteciparem o consumo", diz ela. Contudo, essa euforia consumista raramente é acompanhada por uma análise crítica dos custos e das implicações futuras, negligenciando a "parte, menos glamourosa, de fazer as contas".

As Consequências Financeiras da Falta de Planejamento

A omissão na hora de planejar e calcular as despesas futuras leva o consumidor a comprometer-se além de suas possibilidades. Isso, inevitavelmente, empurra-o para linhas de financiamento com os juros mais elevados do mercado, como o cheque especial, o parcelamento direto na operadora do cartão de crédito ou o rotativo do cartão, onde se paga apenas uma fração da fatura. Essas modalidades, embora ofereçam alívio imediato, aprofundam o ciclo de endividamento.

Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), ressalta que o consumidor brasileiro, embora seja hábil em pesquisar preços de produtos, falha na análise do custo do financiamento. "Na hora de tomar o financiamento, tem o hábito de simplesmente verificar se é possível acomodar a prestação dentro do orçamento", sem considerar os juros totais a serem pagos.

Educação Financeira: A Chave para a Sustentabilidade

A unanimidade entre os especialistas, incluindo Isabela Tavares, Fabio Bentes e Katherine Hennings, é a necessidade premente de maior educação financeira para a população. Capacitar as pessoas a decidir o que, quando e como gastar de forma consciente é a solução estrutural para o problema do endividamento crônico.

Nesse contexto, profissionais como o planejador financeiro Carlos Castro têm um papel crucial. Ele, que criou a plataforma de educação financeira SuperRico e atua na associação Planejar, desenvolve ferramentas como cartilhas e calculadoras para auxiliar em decisões complexas, como a adesão ao programa Desenrola 2.0 ou o uso do FGTS para refinanciamento de dívidas.

O Desenrola e o Desafio de Evitar o Re-endividamento

Programas governamentais como o Desenrola, embora essenciais, são vistos por Carlos Castro como medidas de emergência e de curto prazo. A verdadeira solução, segundo ele, reside em uma abordagem mais estrutural: "Evitar que o brasileiro volte a se endividar, e continue no mesmo nível de endividamento que temos hoje." Isso significa uma mudança de cultura e de hábitos financeiros que vá além da renegociação de dívidas já existentes.

O volume de inadimplência das famílias brasileiras atinge cifras alarmantes, conforme dados do Banco Central. Em março, o Sistema Financeiro Nacional registrava R$ 238,5 bilhões em dívidas não pagas, o equivalente a 5,3% do crédito total concedido. Essa estatística sublinha a urgência de fortalecer a educação financeira e promover um consumo mais consciente e planejado, afastando a tentação do parcelamento fácil e a confusão entre crédito e renda.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Mais recentes

PUBLICIDADE