O litoral de São Paulo se prepara para uma inovação turística e ambiental com a iminente inauguração do primeiro centro de visitação subaquático em água salgada do Brasil. Localizado em Guarujá, o projeto já teve suas esculturas submersas a uma profundidade de oito metros, atraindo a atenção e curiosidade. Imagens recentes revelam mergulhadores interagindo com as obras de arte, um vislumbre do que será oferecido ao público, marcando um novo capítulo para o turismo de contemplação e a conservação marinha no país.
Um Marco Pioneiro no Turismo Subaquático Brasileiro
A iniciativa, resultado de uma colaboração entre a Prefeitura de Guarujá e a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP), representa um feito inédito para o Brasil. A concepção e execução do centro envolveram a parceria com a empresa Pro Diver, responsável por apresentar o projeto ao governo estadual, e o Estação do Mar, liderado pelo instrutor de mergulho José Vicente. Este centro promete não apenas um atrativo turístico sem precedentes, mas também um espaço dedicado à conscientização sobre a riqueza e a fragilidade dos ecossistemas marinhos, oferecendo uma experiência imersiva e educativa para os visitantes.
Meticuloso Planejamento e Engenharia Submarina
A escolha do local para a implantação das estruturas subaquáticas foi precedida por estudos abrangentes em diversos pontos de mergulho de São Paulo. José Vicente, da Estação do Mar, detalhou que os especialistas avaliaram cuidadosamente critérios como o tipo de fundo marinho, temperatura da água, visibilidade e profundidade, além de obter as autorizações necessárias para a realização dos chamados 'naufrágios artificiais'. Dentre as áreas mapeadas em Guarujá, a Praia do Guaiúba destacou-se por seu fundo arenoso e firme, ideal para ancorar as esculturas, em contraste com a inviabilidade de locais como a Praia do Perequê, com seu fundo lamacento, ou a Ilha dos Arvoredos, de natureza rochosa.
A Setur-SP enfatizou o rigor do processo de aprovação, que exigiu diversas autorizações e pareceres técnicos de órgãos ambientais e de patrimônio nas esferas estadual e federal. A Marinha do Brasil, por exemplo, determinou a altura máxima permitida para os objetos a serem submersos. As quinze esculturas, por sua vez, foram projetadas com materiais que garantem durabilidade e segurança ambiental: são confeccionadas em cimento com PH neutro e concreto armado com aço inoxidável marítimo, minimizando qualquer impacto negativo ao ambiente aquático.
As Obras de Arte e Seu Duplo Propósito Ecológico
A fase de execução envolveu a complexa logística de transportar as 15 esculturas, provenientes de Vinhedo (SP), até a Praia do Guaiúba. As peças foram cuidadosamente carregadas em uma embarcação equipada com guindaste e submersas a cerca de 500 metros da costa, nas proximidades da Ilha do Mato. A precisão na colocação exigiu a intervenção de mergulhadores, que realizaram ajustes finos no fundo do mar, culminando na celebração do instrutor José Vicente pela conclusão bem-sucedida de um trabalho de longa data.
As obras, assinadas pelo renomado artista plástico Adélio Sarro, possuem dimensões impressionantes, variando de 1,70 metro a 2,45 metros de altura e pesando até três toneladas. Elas retratam uma gama diversificada de personalidades e figuras simbólicas, profundamente ligadas ao desenvolvimento da cidade e do estado. Entre as representações, destacam-se ícones como o artista plástico Cândido Portinari, o pai da aviação Santos Dumont, São Francisco de Assis – padroeiro dos animais – e o engenheiro Fernando Lee. Além dessas figuras históricas, a coleção inclui personagens como um pescador, uma sereia, um pirata, um surfista e um estivador com saca de café, totalizando quinze esculturas que celebram a cultura e a identidade local.
Mais do que um espetáculo visual, as esculturas foram concebidas com uma função ecológica vital. A intenção é que as estruturas atuem como biofiltros, contribuindo para a melhoria da qualidade da água. Além disso, elas criarão novos pontos de procriação para a vida marinha, promovendo o aumento da biodiversidade e da quantidade de peixes na região. Este aspecto ambiental sublinha o compromisso do projeto com a sustentabilidade e a valorização do ecossistema marinho.
Perspectivas de Visitação e Educação Ambiental
A visitação ao centro subaquático será gratuita, tornando-o acessível a um amplo público. No entanto, para garantir a segurança e enriquecer a experiência de mergulho de contemplação, a secretaria estadual recomenda a contratação de escolas e operadoras de mergulho especializadas. A prefeitura de Guarujá se inspirou em aproximadamente dez museus e centros subaquáticos já existentes no mundo, que demonstram o grande potencial de atração turística. Exemplos como o Museu Subaquático de Arte em Cancún, México, que atrai cerca de um milhão de visitantes anualmente, servem de referência para as expectativas de público. Além do forte apelo turístico, o novo espaço foi concebido para funcionar como um importante polo de educação e sensibilização ambiental, fomentando o respeito e a preservação dos oceanos entre os visitantes.
Com a inauguração em breve, o centro de visitação subaquático de Guarujá emerge como um projeto multifacetado que harmoniza arte, turismo e ecologia. Ele não apenas posiciona o Brasil na vanguarda do turismo subaquático global, mas também estabelece um precedente valioso para a criação de espaços que promovem a conscientização ambiental de forma inovadora e engajadora. A iniciativa promete ser um legado duradouro para a cidade e para a preservação de seu valioso patrimônio marinho.
Fonte: https://g1.globo.com