A Capcom, embora tenha enfrentado momentos de instabilidade em seu passado, vive hoje um período de notável ascensão no cenário dos videogames. No entanto, mesmo em meio às flutuações de seu portfólio, uma joia sempre brilhou com constância: a franquia Monster Hunter. Esta série, que historicamente tem sido um pilar de excelência, manteve sua qualidade inabalável, entregando títulos grandiosos mesmo quando a produtora passava por fases desafiadoras. Apesar do histórico impecável da saga principal, os seus spin-offs, como Monster Hunter Stories 1 e 2, embora divertidos, nunca atingiram o mesmo patamar de magnitude. Com Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection, a Capcom parece ter finalmente preenchido essa lacuna, apresentando uma produção paralela que se equipara em profundidade e impacto aos jogos centrais da franquia.
Uma Narrativa Aprofundada e Conflituosa
Desde os primeiros momentos, a terceira incursão na subsérie Stories demonstra uma significativa evolução em sua abordagem narrativa. Abandonando o tom mais leve dos antecessores, Twisted Reflection mergulha em uma trama mais madura e com um início envolto em conflito. A história desdobra-se em meio a dois reinos em discórdia, cujas preocupações se estendem além das disputas geopolíticas para investigar um misterioso fenômeno sobrenatural. Este evento bizarro transforma monstros em versões cristalizadas e mais poderosas, ameaçando o equilíbrio do mundo.
O jogador assume o papel de capitão dos patrulheiros e filho do rei de Azúria, embarcando em uma jornada épica através do Meridiano Norte, rumo a terras proibidas. O objetivo é desvendar a origem desse enigma que assola o mundo dos Monsties, enquanto o pano de fundo de uma guerra em escala global intensifica a atmosfera. Embora a trama possa se expandir consideravelmente ao longo de uma campanha que facilmente excede as cem horas, ela mantém um propulsor narrativo intrigante, comparável à sensação de descoberta e exploração presente em títulos como Monster Hunter: World.
O elenco de personagens é um dos pontos altos, com cada aliado recebendo espaço para desenvolver suas próprias histórias por meio de arcos e missões secundárias cuidadosamente elaboradas. Essas tarefas são projetadas para fortalecer a conexão do jogador com seus companheiros de aventura. Exemplos notáveis incluem Ogden, um carismático encarregado de catalogar espécies de monstros, atuando como uma enciclopédia viva, e Simon, um montador que cresceu órfão e foi resgatado na floresta. No entanto, o jogo mantém sua essência de Monster Hunter, incorporando as clássicas “fetch quests” – tarefas de coleta e transporte de itens que, embora familiares aos fãs de longa data, podem gerar alguma frustração em jogadores que buscam uma experiência de RPG mais tradicional, dada a percepção de conteúdo artificialmente estendido.
Refinamento no Combate e Captura de Monstros
O sistema de combate por turnos, uma marca registrada da série Stories, permanece fundamentalmente inalterado, sustentado pela lógica de pedra, papel e tesoura: Velocidade supera Poder, Poder vence Técnica, e Técnica prevalece sobre Velocidade. A escolha do tipo de ataque é crucial para o sucesso em cada rodada, mas a profundidade estratégica se estende a nuances como danos elementais e o uso diversificado de armas, que vão de martelos a cornetas de caça, adicionando camadas de complexidade tática.
Apesar da solidez do sistema, um desafio pode surgir quando o padrão de ataque e as fraquezas de um monstro são descobertos, diminuindo a imprevisibilidade em confrontos subsequentes com a mesma espécie. Contudo, a Capcom mitiga essa repetição com a inclusão de variantes para diversos monstros, oferecendo encontros mais dinâmicos e imprevisíveis. Além disso, o jogo introduz melhorias significativas na qualidade de vida do jogador. Inspirado em mecânicas modernas de RPG, é possível encerrar confrontos com um único golpe quando o jogador está em um nível significativamente superior ao do oponente, agilizando a coleta de recursos. A opção de acelerar a velocidade dos duelos também é um acréscimo bem-vindo, especialmente para aqueles com tempo limitado, otimizando a experiência de jogo.
O cerne da série spin-off sempre residiu na preservação e restauração do ecossistema de monstros, promovendo uma convivência harmoniosa entre criaturas e montadores, em vez da caça predatória. Nesse sentido, o sistema de captura de Monsties foi aprimorado para ser mais dinâmico e menos burocrático em comparação com os títulos anteriores. A intenção clara da Capcom é reduzir o tempo gasto pelo jogador em tocas, tornando o processo de recrutamento de novos Monsties mais fluido e menos tedioso. A diversidade de criaturas para colecionar é, sem dúvida, uma das partes mais envolventes de Monster Hunter Stories 3, incentivando a exploração e a montagem de equipes variadas.
Conclusão: Um Novo Patamar para os Spin-offs
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection é um marco significativo para a franquia, conseguindo a proeza de se posicionar não apenas como um excelente RPG, mas como um spin-off que finalmente alcança a grandiosidade da série principal. Com uma narrativa mais madura e cheia de camadas, personagens bem desenvolvidos e um sistema de combate que, apesar de pequenas ressalvas, se mostra envolvente e recebeu melhorias importantes na qualidade de vida, o jogo oferece uma experiência rica e satisfatória. A Capcom demonstra uma compreensão profunda de sua audiência, refinando mecânicas centrais como a captura de monstros para torná-las mais acessíveis e divertidas. Twisted Reflection não apenas honra o legado de Monster Hunter, mas também estabelece um novo e elevado padrão para futuros títulos paralelos, consolidando-se como uma adição digna e essencial ao universo dos caçadores de monstros.
Fonte: https://www.tecmundo.com.br