Circo de Tradição Familiar é Elevado a Patrimônio Cultural do Brasil

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O universo mágico do circo, um símbolo de alegria e arte itinerante, alcançou um marco histórico no Brasil. Nesta semana, o Circo de Tradição Familiar foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do país pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A inclusão no Livro de Registro das Formas de Expressão não apenas celebra uma manifestação artística centenária, mas também honra a persistência e a dedicação de gerações de famílias que, com seu trabalho e paixão, mantiveram viva uma das mais encantadoras expressões da cultura popular brasileira.

Uma Manifestação Cultural de Relevância Nacional

O reconhecimento do Iphan destaca o Circo de Tradição Familiar como uma expressão cultural única, caracterizada por sua natureza itinerante e sua organização em torno de núcleos familiares. Essa estrutura peculiar é fundamental para a transmissão oral de saberes, técnicas, modos de fazer e formas de convivência, que se perpetuam de uma geração para outra, espalhando suas lonas e espetáculos por todo o território nacional. Essa vitalidade e adaptabilidade são traços distintivos que o distinguem no cenário cultural.

A decisão favorável do conselho consultivo ressaltou a inegável relevância nacional dessa prática. A importância do circo familiar transcende a mera apresentação de espetáculos, englobando também o fomento de práticas lúdicas e a preservação da memória social do Brasil. Ele atua como um elo entre o passado e o presente, mantendo vivas narrativas e tradições que ressoam com a identidade cultural de diversas comunidades brasileiras.

A Luta Incansável da Família Zanchettini pelo Reconhecimento

A consagração do Circo de Tradição Familiar como patrimônio não é um evento isolado, mas o culminar de uma longa e dedicada batalha, encabeçada por famílias que nunca desistiram de sua arte. Em particular, o Circo de Tradição Familiar Zanchettini, fundado em 1991 no Paraná, emergiu como o grande protagonista desse processo. A iniciativa de buscar o reconhecimento partiu da matriarca Wanda Cabral Zanchettin, que, desde 1993, liderou os esforços para que essa categoria artística recebesse o devido valor, protocolando o pedido oficial no Iphan em 2005 e mobilizando uma vasta rede de famílias circenses, associações e pesquisadores.

A aprovação do registro, concretizada em uma reunião no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, carrega um sabor agridoce para a família. Embora a vitória seja celebrada como um 'Oscar para o circo brasileiro', a ausência de Wanda Cabral Zanchettin, que faleceu em 2017 sem presenciar o triunfo de sua luta de mais de 30 anos, é sentida profundamente. Sua filha, Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, herdeira da tradição, reivindica com orgulho o protagonismo de sua família, destacando que foram eles que 'trabalharam, foram a Brasília, fizeram reunião', sempre com o objetivo de beneficiar todos os circos brasileiros e honrar os antepassados.

As Raízes e a Evolução do Circo Zanchettini

A história da família Zanchettini com o circo remonta a 1949, quando Wanda Cabral, aos 18 anos, já atuava no circo de ciganos Irmãos Marques. Foi nesse ambiente que conheceu o italiano Primo Júlio, com quem se casou e, junto aos seus familiares, fundou o Circo Teatro Gávea. Esse pequeno circo se tornou a escola da família, onde Wanda transmitiu com maestria os fundamentos das artes circenses, uma sabedoria que ela mesma absorveu desde a infância, crescendo imersa na cultura do picadeiro.

Com o falecimento de Primo Júlio em 1991, Wanda decidiu homenagear o marido, que a acompanhou como artista e palhaço, rebatizando a companhia como Circo Zanchettini. Ao longo dos anos, o circo se expandiu com a vinda dos dez filhos do casal – cinco homens e cinco mulheres – que, como conta Erimeide Maria, de 65 anos, 'foram nascendo e crescendo em barracas em volta do circo'. Essa convivência intensa e a união familiar, mesmo diante das dificuldades inerentes à vida circense, forjaram um espírito de paixão e resiliência que define a trajetória do Circo Zanchettini, com seus integrantes dominando diversas artes, do trapézio ao canto, da acrobacia à atuação.

O Legado Vivo: Geração Após Geração no Picadeiro

A vitalidade do Circo de Tradição Familiar Zanchettini é garantida pela constante renovação de suas gerações. Os mais jovens da família assumem um papel ativo no elenco, e o rico repertório de histórias, saberes e técnicas é repassado continuamente, perpetuando o linguajar e a sabedoria intrínsecos ao universo circense. Esse processo de transmissão não se limita apenas às habilidades artísticas, mas abrange toda a filosofia e o propósito que sustentam essa forma de vida.

A dedicação dos descendentes assegura que a tradição se mantenha vibrante, com muitos escolhendo o circo como sua carreira profissional. A paixão pelo picadeiro é tão forte que um dos sobrinhos, por exemplo, expandiu os horizontes da família, levando sua arte circense para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Essa continuidade, que se manifesta na 'união dos irmãos, mãe, pai e agregados', é o que permite ao circo enfrentar as estradas e os desafios, mantendo viva uma paixão que se traduz em espetáculos e em um amor profundo pela arte, garantindo que as lonas continuem a ser erguidas e os sorrisos, compartilhados, por muitas gerações futuras.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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