Misoginia Digital: Quando o Engajamento Online Alimenta a Violência Contra Mulheres

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O ambiente digital, com suas infinitas possibilidades de conexão, tornou-se também um campo fértil para a disseminação do ódio, especialmente contra mulheres. Memes depreciativos, ameaças diretas, vazamento de dados pessoais e até a criação de deepfakes pornográficos são apenas algumas das táticas empregadas para transformar mulheres em alvos virtuais. Essa escalada de hostilidade online não é um fenômeno isolado; ela espelha e amplifica a violência de gênero presente na sociedade, com a agravante de que o discurso de ódio, muitas vezes, gera engajamento e, consequentemente, lucros para seus perpetradores e para as plataformas digitais. Esse cenário preocupante é o fio condutor do episódio “A nova roupa do machismo”, do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, que mergulha na discussão sobre a monetização e o estímulo à misoginia na internet.

O Reflexo Digital da Violência de Gênero

A fronteira entre o mundo virtual e o real é cada vez mais tênue, e o que ocorre nas redes sociais possui impacto direto na vida offline. A misoginia digital, longe de ser um fenômeno isolado, reflete um problema social enraizado que, no ambiente online, ganha novas dimensões e alcance. Dados alarmantes do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que, em 2025, o Brasil atingiu recordes de feminicídio, com uma média de quatro mulheres mortas por dia. Embora a correlação direta com o aumento do discurso de ódio na internet ainda esteja sob estudo, é inegável que a violência de gênero, em suas diversas manifestações, tem crescido tanto nas telas quanto fora delas.

A Explosão do Ódio Online: Números e Motivações

Um estudo do Desinfo.pop, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), revelou a dimensão assustadora desse crescimento: entre 2019 e 2025, o envio de conteúdo misógino em 85 comunidades virtuais monitoradas aumentou cerca de 600 vezes. Essa proliferação de agressões digitais não é acidental. Para a pesquisadora Julie Ricard, o avanço dos direitos e do poder feminino tem gerado uma reação em parcelas da população masculina. “Eles estão quase numa missão de se proteger”, analisa Ricard, sugerindo que muitos homens se sentem ameaçados pelas conquistas femininas. Essa percepção é corroborada pela escritora Márcia Tiburi, que complementa: “As mulheres não aceitam mais o destino que o patriarcado tinha relegado a elas e isso é compreendido pelos homens como um ataque à masculinidade deles.” Essa dinâmica de ressentimento e medo é um motor potente para a propagação do ódio nas redes.

Relatos de Vítimas: O Preço da Exposição Digital

A realidade da misoginia online é sentida de forma brutal por inúmeras mulheres. A musicista Bruna Volpi, entrevistada no Caminhos da Reportagem, experimentou isso na pele após ironizar comportamentos masculinos em suas redes sociais. Ela recebeu ameaças diretas, incluindo o vazamento de seus dados por um executivo de uma empresa cliente. “Um homem que se ofende porque eu estou falando que nós merecemos viver, esse homem é um potencial perigo para a sociedade”, desabafa Bruna. Outro caso emblemático é o da blogueira feminista Lola Aronovich, alvo de ataques há mais de 15 anos, incluindo a criação de um site dedicado à sua difamação e vazamento de informações. A gravidade de seu caso levou à condenação de dois homens, sendo um deles o primeiro preso por terrorismo digital no país, cumprindo 41 anos de prisão. Sua luta foi crucial para a criação da Lei 13.642/2018, conhecida como Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes cibernéticos de ódio contra mulheres.

Além desses casos notórios, mulheres que atuam em áreas tradicionalmente masculinas, como a comentarista de games Layze Pinto Brandão (Lahgolas) e a jornalista esportiva Luciana Zogaib, da Rádio Nacional e TV Brasil, enfrentam diariamente um volume intenso de discurso de ódio. Elas ressaltam a importância de uma legislação mais robusta para coibir esses atos, fazendo com que os agressores “pensem duas vezes antes de fazer aquele tipo de coisa, principalmente por conta de valentões que se acham acima da lei”, nas palavras de Lahgolas.

A Luta por Legislação e a Ambivalência das Plataformas

A Lei Lola representa um avanço significativo, empoderando a Polícia Federal, que, por meio do coordenador de Combate a Crimes Cibernéticos de Ódio, delegado Flávio Rolim, define esses crimes como “discursos e postagens que normalizam a violência e fomentam práticas extremas, como homicídios e estupro, contra a mulher”. Apesar disso, o Brasil ainda carece de uma lei específica que criminalize a misoginia em si. A Safernet, referência nacional em proteção de direitos digitais, registrou um aumento de 220% no número de denúncias de crimes online de misoginia entre 2024 e 2025, evidenciando a urgência de respostas legais mais abrangentes.

Paralelamente, a atuação das grandes plataformas digitais é alvo de críticas. Em janeiro, a Meta – responsável por Facebook, Instagram e Threads – implementou mudanças que permitem acusações de “anormalidade mental relacionadas a gênero ou orientação sexual”. Essa alteração é vista por Julie Ricard como um retrocesso. “É um retorno ao tal conceito de ‘liberdade de expressão’ inicial quando a empresa foi criada para justificar uma menor moderação de temas que eles consideram de minorias”, analisa a pesquisadora. A lógica por trás dessas decisões é, muitas vezes, o engajamento: “A gente sabe que ódio gera engajamento e que essa é a máquina deles, de manter as pessoas conectadas o máximo possível”, conclui Ricard, expondo o dilema entre a moderação de conteúdo e os modelos de negócio baseados na retenção de usuários.

A Urgência de um Combate Multifacetado

O combate à misoginia digital exige uma abordagem complexa e multifacetada. É fundamental que haja avanços legislativos, com a criminalização explícita da misoginia, para oferecer mais proteção às mulheres e responsabilizar os agressores. Ao mesmo tempo, é crucial pressionar as plataformas digitais para que assumam sua responsabilidade na moderação de conteúdo e priorizem a segurança e o bem-estar de seus usuários acima da lógica do engajamento a qualquer custo. A educação para o uso consciente da internet e o fomento a uma cultura de respeito e igualdade, tanto online quanto offline, são passos indispensáveis para desconstruir a "nova roupa do machismo" e garantir que o ambiente digital se torne um espaço de empoderamento, e não de ameaça, para todas as mulheres.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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