A cidade de Ribeirão Preto (SP) enfrenta um significativo obstáculo em sua campanha de controle da dengue: a dificuldade de acesso a residências para a realização de vistorias essenciais. De acordo com a Vigilância em Saúde, aproximadamente 40% dos imóveis visitados pelas equipes de controle de endemias permanecem inacessíveis, seja por estarem fechados ou pela recusa dos moradores em permitir a entrada. Essa alta taxa compromete diretamente a eficácia das ações preventivas e levanta um alerta sobre o potencial de proliferação do mosquito Aedes aegypti na região, especialmente em períodos de maior risco como o verão.
Desafios Operacionais e o Impacto na Prevenção
As equipes de controle de endemias atuam em bairros estratégicos, definidos com base na concentração de casos suspeitos ou confirmados, densidade populacional e características geográficas. O trabalho consiste em visitas domiciliares, onde agentes orientam os moradores e inspecionam quintais, calhas, ralos, caixas d’água e outros recipientes que possam acumular água. A impossibilidade de acesso a um número tão elevado de imóveis cria lacunas críticas, impedindo a identificação e eliminação de potenciais criadouros do mosquito. Luís Henrique Jardim, agente de controle, ressalta que a ausência ou recusa impede a continuidade do trabalho preventivo, essencial para etapas posteriores como a nebulização.
A subsecretária de Vigilância em Saúde, Luzia Márcia Romanholi, explica que os domicílios não avaliados são incluídos em uma lista de revisita. Uma segunda tentativa é programada com o objetivo de orientar o morador sobre medidas simples de eliminação de focos e controle mecânico. Além da conscientização, em casos específicos onde recipientes não podem ser removidos ou vedados, os agentes aplicam larvicida para evitar a eclosão dos ovos. Essas ações são contínuas ao longo do ano, mas são intensificadas durante os meses de maior transmissão da doença, geralmente associados a condições climáticas favoráveis ao mosquito.
Cenário Epidemiológico e Medidas de Contenção
Entre 1º de janeiro e 19 de fevereiro de 2026, Ribeirão Preto registrou 1.926 notificações de dengue, resultando em 47 casos confirmados e nenhum óbito. Em comparação, o mesmo período de 2025 apresentou números significativamente mais altos, com 11.274 notificações, 7.434 confirmações e cinco mortes. Apesar da redução aparente, a Vigilância em Saúde mantém o alerta. As condições climáticas do verão, caracterizadas por altas temperaturas e chuvas frequentes, criam um ambiente propício para a rápida reprodução do Aedes aegypti, o que pode levar a um aumento repentino e intenso da transmissão da doença, conforme alerta a subsecretária Luzia Romanholi.
Paralelamente às vistorias, a vacinação contra a dengue está disponível nas unidades de saúde para o público-alvo definido pelo Ministério da Saúde. Em 2026, 87% dos adolescentes aptos receberam a primeira dose da vacina. Contudo, apenas 37% completaram o esquema vacinal com a segunda aplicação, um dado preocupante. A Secretaria de Saúde reforça a importância de completar o ciclo vacinal, pois a proteção efetiva contra a doença só é garantida após a administração das duas doses.
A Prevenção Começa em Casa: Conscientização e Participação Cidadã
A principal e mais eficaz forma de prevenção da dengue continua sendo a eliminação da água parada, que serve de criadouro para o mosquito. Locais comuns de acúmulo incluem pratos de vasos de plantas, pneus descartados, garrafas abertas, calhas entupidas e caixas d’água destampadas. A conscientização e a ação individual de cada morador são fundamentais para impedir a proliferação do vetor em suas próprias residências e, consequentemente, em toda a comunidade.
A experiência de Deusilaine Brito Cruz, moradora do Jardim Aeroporto, ilustra a importância da participação cidadã. Após tentativas anteriores, agentes conseguiram vistoriar sua casa, não encontrando larvas, o que a moradora atribui ao seu hábito constante de verificar o quintal e não deixar água acumulada. Tendo vivenciado a doença na família, Deusilaine destaca a gravidade da dengue e a necessidade de cuidados contínuos, reforçando que a prevenção é um esforço coletivo.
O combate à dengue em Ribeirão Preto exige um esforço conjunto e contínuo. A superação da barreira de acesso aos imóveis, aliada à adesão massiva à vacinação completa e à manutenção rigorosa da limpeza domiciliar, são pilares para proteger a saúde pública. A vigilância permanente das autoridades, somada à participação ativa e consciente da população, é crucial para mitigar os riscos e evitar uma nova escalada de casos na cidade.
Fonte: https://g1.globo.com