No coração da Mata Atlântica paulista, a cidade de Tapiraí, cujo próprio nome evoca a forte presença da espécie <i>Tapirus terrestris</i>, tornou-se palco de um fenômeno natural extraordinário: a recorrência de antas albinas. Longe de ser apenas uma curiosidade pontual, a presença desses mamíferos de pelagem totalmente branca transformou-se em objeto de intenso estudo científico, cimentando-se também no folclore local. A raridade de tal manifestação genética em ambiente silvestre atraiu a atenção de pesquisadores e conservacionistas, revelando uma história fascinante de descoberta e investigação na Reserva Legado das Águas.
O Marco Inicial: A Imagem que Revelou um Fenômeno
A faísca para essa jornada científica surgiu em 2014, quando o biólogo e fotógrafo Luciano Candisani foi contratado para documentar a biodiversidade do que viria a ser o Legado das Águas. Durante seu trabalho, relatos persistentes de moradores sobre uma anta supostamente branca que se movia pela mata, especialmente à noite, capturaram sua atenção. Impulsionado pela curiosidade e pela busca por registros de alta qualidade, Candisani instalou armadilhas fotográficas profissionais. Foi assim que ele obteve o primeiro registro de uma anta albina de vida livre, um feito que não apenas confirmou as histórias locais, mas também abriu as portas para uma pesquisa aprofundada sobre a ocorrência do albinismo naquela área.
A Raridade Genética Sob a Lupa da Ciência
A condição de albinismo é intrinsecamente rara, caracterizada pela ausência de pigmentação. Contudo, a descoberta de múltiplos indivíduos albinos na mesma região, como em Tapiraí, é um evento de proporções extraordinárias, comparável a um “raio caindo duas vezes no mesmo lugar”, conforme descreveu Mariana Landis, pesquisadora do Instituto Manacá. Este fenômeno é ainda mais notável por envolver uma característica genética recessiva em animais selvagens. Para desvendar os mistérios por trás dessa prevalência, o Instituto Manacá, em parceria com o Legado das Águas, iniciou uma meticulosa investigação em 2018. A equipe empregou armadilhas de pelo, uma técnica engenhosa que consiste em arames estrategicamente posicionados para coletar amostras de crina das antas. Esses pelos, contendo os bulbos com informações genéticas, foram cruciais para as análises laboratoriais que visavam determinar o grau de parentesco entre os animais e as causas do albinismo local.
Identificações Chave e um Trágico Resgate
As análises genéticas trouxeram resultados significativos, confirmando a existência de duas antas albinas adultas, ambos machos, que foram carinhosamente batizados de Gasparzinho e Canjica. Além desses, a pesquisa compilou outros registros visuais, como o de um funcionário da reserva que flagrou uma anta branca nadando no Rio Juquiá em 2016. Um dos momentos mais marcantes da pesquisa foi o resgate de um filhote de anta albino em Piedade, cidade vizinha a Tapiraí, em novembro de 2020. Abandonado pela mãe, o jovem animal foi levado para o Zoológico Municipal 'Quinzinho de Barros', em Sorocaba, onde recebeu cuidados especializados. Embora a intenção fosse estudar o albinismo através dele, o filhote, infelizmente, sucumbiu a uma infecção respiratória em março de 2024. Apesar dos registros confirmados de Gasparzinho, Canjica e o filhote resgatado, relatos contínuos de moradores sugerem a possível existência de outras antas albinas na vasta extensão da Mata Atlântica da região.
Um Símbolo de Biodiversidade e Resiliência
A saga das antas albinas em Tapiraí transcende a mera anomalia genética; ela representa um poderoso símbolo da biodiversidade e da resiliência da Mata Atlântica. A pesquisa desencadeada por uma única fotografia não só aprofundou nosso entendimento sobre o albinismo em populações selvagens, mas também reforçou a importância da conservação de habitats e do monitoramento contínuo das espécies. A história de Gasparzinho, Canjica e o filhote resgatado ressalta a interação entre a curiosidade humana, a ciência e a natureza, deixando um legado de conhecimento e um lembrete vívido da fragilidade e da beleza intrínseca da vida selvagem brasileira.
Fonte: https://g1.globo.com