O Carnaval brasileiro, com seu esplendor e euforia, muitas vezes mascara uma exclusão histórica de grupos que, nos bastidores, são a alma da festa. Em São Paulo, a cantora e atriz Pepita, aos 43 anos, emerge como um símbolo dessa resistência, ocupando o posto de rainha de bateria da Unidos de São Lucas. Sua presença à frente dos ritmistas não é apenas um feito pessoal, mas uma poderosa reivindicação por visibilidade e reconhecimento para a comunidade LGBTQIA+ e, em especial, para mulheres trans, que historicamente constroem a folia mas são impedidas de brilhar em seu centro.
Um Legado Reaberto, Não uma Novidade
Pepita rejeita veementemente o rótulo de 'novidade' para sua coroação, interpretando-a como a reabertura de uma porta que, segundo ela, foi fechada após a passagem de ícones trans e travestis. Em suas palavras, sua ascensão segue um legado interrompido por mais de duas décadas, honrando a memória de figuras como Jorge Lafond e Vera Verão – este último, inclusive, reinou na mesma bateria da Unidos de São Lucas. Ela ainda recorda a audácia da Beija-Flor com Eloína dos Leopardos, reforçando que sua presença não tira o espaço de ninguém, mas sim ocupa um lugar que é historicamente seu de direito.
A Luta por Visibilidade e a Estratégia do Deboche
A trajetória de Pepita no Carnaval foi marcada por obstáculos, especialmente no que tange à cobertura midiática. A artista revela que, no início, veículos especializados em samba a tornavam invisível, ignorando sua presença por preconceito. Diante dessa realidade, ela adotou uma estratégia de resistência pouco convencional: o deboche. Ao avistar câmeras que antes a ignoravam, Pepita agora lhes vira as costas, consciente de que essa atitude pode ser interpretada como antipatia ou falta de educação, mas serve como um poderoso protesto contra a invisibilidade imposta.
O Carnaval como Palco de Resistência e Protagonismo LGBTQIA+
Para a rainha, a avenida é, e sempre foi, um espaço de resistência. Ela enfatiza que o Carnaval é intrinsecamente construído por pessoas pretas e pela comunidade LGBTQIA+, que dedicam seu suor e talento nos barracões – confeccionando fantasias, montando alegorias – mas raramente são o centro das atenções no desfile. Pepita questiona a ausência de rainhas de bateria travestis, afirmando sua determinação em romper essa barreira e assegurar que a diversidade que pulsa nos bastidores também resplandeça sob os holofotes do Anhembi, desafiando qualquer tentativa de exclusão.
Preparação Rigorosa para um Desfile com Propósito
A dedicação de Pepita à sua posição é visível na intensa preparação física e mental. Para o desfile, ela passou por um rigoroso regime, perdendo 8 kg e incorporando uma rotina de boxe que começa às 7h30 da manhã, antes mesmo de iniciar o dia com seu filho, Lucca Antônio, fruto de seu casamento com Kayque Nogueira. Essa disciplina reflete não apenas o compromisso com o 'personagem' que levará para a avenida, mas também a crença e o apoio mútuo entre ela e o mestre de bateria Wendell, que acredita plenamente em sua performance, solidificando o samba como um território de constante superação.
Unidos de São Lucas e a Mensagem do Enredo
A Unidos de São Lucas, integrando o Grupo de Acesso 2 do Carnaval paulistano, desfilará no dia 7 de fevereiro no Sambódromo do Anhembi. A agremiação será a quinta a cruzar a avenida, apresentando o enredo 'Meu tambor é ancestral, heranças e riquezas de um povo…um Brasil de festas pretas!'. A escolha do tema ressoa profundamente com a jornada de Pepita, celebrando a ancestralidade, a cultura negra e a riqueza das manifestações populares, consolidando a mensagem de que o Carnaval é, acima de tudo, um palco de identidade e resiliência.
A presença de Pepita como rainha de bateria transcende o mero entretenimento carnavalesco. Ela personifica a luta contínua por um Carnaval mais inclusivo e representativo, onde a diversidade dos que o constroem seja igualmente celebrada em sua linha de frente. Sua voz e sua performance na avenida não são apenas um desfile, mas uma declaração poderosa de pertencimento e resistência, provando que o samba é, e deve ser, um lugar para todos.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br