O polêmico caso da venda clandestina de sangue de gatos em Monte Alto, interior de São Paulo, que resultou na acusação de dois médicos veterinários, ganhou um novo capítulo com o primeiro pronunciamento público da defesa de uma das rés. Quase um ano após os fatos que chocaram a comunidade e o setor veterinário, a advogada de Thaís Daniele Antonussi, apontada pelo Ministério Público como uma das líderes do esquema, veio a público para contestar a condução da investigação e a repercussão do caso, alegando que sua cliente jamais foi formalmente ouvida pelas autoridades.
A Defesa Rompe o Silêncio em Meio à Repercussão Digital
O advogado Daniel Seixas Rondi, representante de Thaís Daniele Antonussi, concedeu uma entrevista coletiva, marcando a primeira manifestação pública da defesa desde o início das acusações. Ele expressou preocupação com a forma como o caso se desenvolveu nas redes sociais, afirmando que sua cliente tem sido alvo de um 'julgamento' antecipado, sem ter a oportunidade de apresentar sua versão dos fatos. Este posicionamento surge em um momento estratégico, logo após a Justiça de Monte Alto ter negado diversos pedidos feitos pelo Ministério Público contra Antonussi, incluindo a suspensão de seu registro profissional, indicando uma possível fragilidade nas solicitações iniciais da acusação.
Questionamentos sobre a Condução da Investigação
Um dos pontos centrais da defesa é a alegação de que Thaís Antonussi nunca foi ouvida pelas autoridades durante a fase de inquérito, mesmo após a denúncia e seu indiciamento. Documentos do processo confirmam que a polícia tentou localizá-la em diferentes endereços de São José do Rio Preto, através de cartas precatórias emitidas em outubro de 2025 e maio de 2026, mas sem sucesso. Contudo, o advogado refuta a ideia de omissão por parte de sua cliente, apresentando uma petição de outubro de 2025 em que Antonussi, por meio de seu defensor, tentava remarcar um depoimento em um inquérito paralelo, algo que, segundo a defesa, nunca ocorreu. A crítica se estende à ausência de tentativas de contato via telefone ou redes sociais, cujas informações estariam acessíveis aos investigadores, inclusive com o número de telefone de Antonussi presente em uma das cartas precatórias.
A Versão da Defesa sobre a Operação Clandestina
A estratégia da defesa consiste em diferenciar as etapas da cadeia: a coleta de sangue e a atividade do banco de sangue que recebia as bolsas. De acordo com o advogado, Thaís Antonussi pagava por um serviço que ela considerava regular, esperando que a coleta fosse realizada por uma equipe habilitada, em local adequado e sob supervisão veterinária, o que, conforme os autos, não teria ocorrido na casa em Monte Alto onde os animais foram encontrados. A defesa sustenta que a responsabilidade pelas condições insalubres e clandestinas do local de coleta recairia sobre quem o operava. Argumenta-se que a cliente se preocupava em garantir a procedência e a qualidade do sangue *após* a coleta, assegurando que cada bolsa era acompanhada de um termo de doação do tutor, enviada a laboratório para exames, com nota fiscal emitida e tributos recolhidos. O advogado desafia a acusação a provar que Antonussi tinha conhecimento ou intenção de financiar coletas ilegais, enfatizando a presunção de boa-fé.
Distanciamento de Coacusado e a Posição do Ministério Público
Outro ponto defendido é a ausência de qualquer ligação entre Thaís Antonussi e Renato Franco, o outro médico veterinário réu no processo. O advogado afirma categoricamente que os dois são concorrentes e não possuem vínculo, informação que, curiosamente, foi corroborada pelo próprio Renato Franco em depoimento à polícia em novembro de 2025, onde ele também declarou não ter relação com a empresa de Antonussi. Em contrapartida, a denúncia do Ministério Público mantém a tese de que Antonussi exercia a coordenação geral do grupo, sendo responsável por determinar a rotina das coletas, negociar pagamentos e receber o material, fundamentando essa acusação em mensagens extraídas do celular de um dos envolvidos.
À medida que o processo avança, a manifestação da defesa de Thaís Daniele Antonussi adiciona novas camadas de complexidade ao caso do sangue de gatos em Monte Alto. Com as narrativas da acusação e da defesa se confrontando, especialmente no que tange à participação e ao conhecimento das atividades ilícitas, o desdobramento judicial promete ser detalhado e crucial para a elucidação dos fatos. A alegação de falhas processuais na investigação levanta questões significativas sobre o direito à ampla defesa, enquanto a sociedade aguarda as decisões da Justiça frente a um caso que expõe a crueldade animal e a busca por lucros ilícitos no setor veterinário.
Fonte: https://g1.globo.com