Carlos Marighella: O Reconhecimento da Culpa do Estado, Três Décadas Depois

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A imagem impactante de um corpo crivado de balas, recebida via telex por um jovem Carlos Augusto, então com 20 anos, foi a forma brutal como descobriu o assassinato de seu pai, Carlos Marighella, em 4 de novembro de 1969. Este evento não só marcou o início de uma perseguição pessoal devido ao sobrenome, mas também deflagrou uma longa jornada por justiça e reconhecimento. Três décadas se passaram desde que o Estado brasileiro, pela primeira vez, admitiu formalmente sua responsabilidade pela morte do ex-deputado federal e guerrilheiro, um marco na história da reparação de vítimas da ditadura militar.

O Marco da Reparação: A Lei 9.140 e o Atestado de Óbito

Foi em 11 de setembro de 1996 que Carlinhos, como é conhecido Carlos Augusto, recebeu o atestado de óbito de seu pai, um documento que simbolizava a admissão de culpa do Estado. Este reconhecimento inédito veio sob os termos da Lei 9.140, sancionada em 1995, que criou a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Para o filho de Marighella, este foi o primeiro e fundamental passo para a reparação da imagem de seu pai e de tantos outros que pereceram sob o regime. Mais do que uma dor pessoal, Carlinhos, hoje com 78 anos, destaca a importância desse momento para as famílias que, devido ao desaparecimento de seus entes, enfrentavam impedimentos legais para acessar bens e direitos.

Desvendando a Verdade por Trás da Emboscada

Carlos Marighella foi vítima de uma emboscada em São Paulo, orquestrada por agentes da ditadura, uma realidade que contrastava drasticamente com a narrativa oficial de confronto. O jurista Miguel Reale Júnior, primeiro presidente da comissão, rememorou que a admissão da culpa estatal em 1996 foi um dos momentos mais significativos do grupo. Ele sublinhou a importância de desmistificar as cenas montadas pela polícia, revelando que o que houve foi, na verdade, um fuzilamento. Reale Júnior sintetizou a responsabilidade institucional: “Havendo assassinato de pessoa sob controle [policial], configura responsabilidade do Estado.” Essa verdade era crucial para restaurar a dignidade não apenas de Marighella, que foi inicialmente sepultado como indigente e só pôde ter seus restos mortais transportados para sua cidade natal, Salvador (BA), em 1979, após a Lei de Anistia, mas também de inúmeros outros que sequer tiveram um sepultamento digno, conforme relatado por Carlinhos.

A Luta Contínua pela Memória e a Retificação Histórica

A jornada por justiça não se encerrou com o primeiro reconhecimento. Nilmário Miranda, então presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, recordou a forte resistência enfrentada à época em relação à reparação de Marighella e outros. Ele enfatizou que o objetivo primordial era reconhecer a responsabilidade do Estado, não meramente punir indivíduos. A atuação incansável de Carlinhos e Clara Charf, companheira de Marighella, foi crucial para manter viva a demanda por justiça e reconhecimento. As ações da comissão, inclusive, foram detalhadas no livro 'Dos Filhos deste Solo', escrito por Miranda. Mais recentemente, a família de Marighella recebeu um novo documento, retificado, que trouxe informações adicionais e corrigiu omissões, um esforço liderado pela atual presidente da comissão, Eugênia Gonzaga. Essa retificação permitiu, por exemplo, que o atestado de óbito incluísse a menção a Clara Charf como viúva e companheira, um casamento vivido na clandestinidade e nunca formalmente reconhecido em vida. A comissão também padronizou as descrições de morte como “não natural, violenta, decorrente da perseguição política do Estado brasileiro”, uma medida essencial para a clareza histórica e para a entrega de outros 62 documentos a famílias de vítimas.

O Legado de Marighella: Uma Lição para o Futuro

Para Carlinhos, a reparação vai muito além das soluções legais. Ele a vê como uma lição vital para a sociedade, um lembrete perene da necessidade de rechaçar golpes e de zelar incessantemente pela democracia. “A gente ainda tem um longo caminho a percorrer. E o modo correto disso é conscientizar, sobretudo, a nossa juventude”, afirma. O filho almeja que a luta de Marighella pelo país seja amplamente conhecida e compreendida pelas novas gerações. Um gesto recente de grande emoção para a família foi a outorga simbólica do diploma de engenheiro ao pai pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), no mês passado. Marighella, que estudou por quatro anos na Escola Politécnica e era considerado um dos alunos mais brilhantes, não pôde concluir seu curso devido à sua intensa militância e ações contra a ditadura, mas seu legado acadêmico e político agora também é publicamente reconhecido.

O trigésimo aniversário do reconhecimento estatal da culpa pela morte de Carlos Marighella transcende a efeméride. Ele representa a concretização de uma batalha incansável por verdade e justiça, um processo que, embora tardio, é fundamental para a construção de uma memória coletiva mais honesta e para a consolidação dos valores democráticos. A história de Marighella, e o esforço de sua família e de comissões de direitos humanos, continua a inspirar a reflexão sobre o passado e a vigilância sobre o futuro do Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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