Imagens gravadas por câmeras corporais de policiais militares se tornaram o centro de uma complexa investigação sobre a morte de Wesley dos Reis, de 41 anos, ocorrida em 5 de julho na zona sul de São Paulo. Os registros mostram o momento em que oficiais atiram contra o homem, que retornava da festa de aniversário de dois anos de sua neta. O caso, marcado por controvérsias como o acionamento tardio da sirene da viatura e o disparo antes de uma ordem formal de parada, está sob apuração do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e da própria Polícia Militar.
O Incidente Capturado Pelas Câmeras Corporais
Os vídeos das câmeras acopladas aos uniformes dos policiais Lucas Benitelli da Costa e Héctor Luiz de Macedo detalham a sequência de eventos. Durante um patrulhamento, a dupla avistou e começou a perseguir duas motocicletas, em uma das quais Wesley estava na garupa, enquanto a outra era conduzida por sua esposa, Pâmela, acompanhada do filho do casal. Curiosamente, a perseguição iniciou-se sem o uso da sirene da viatura, que permaneceu desligada.
Durante a ação, um dos oficiais comunicou pelo rádio a observação de uma placa parcialmente coberta em uma das motos. Pouco depois, ao se aproximarem dos veículos, os policiais alertaram a central sobre uma fuga e, em seguida, deram a ordem para Wesley parar a motocicleta. Quase que instantaneamente a esse comando, o soldado Héctor efetuou o disparo fatal. A sirene da viatura só foi acionada após o tiro. Os policiais inicialmente seguiram a moto onde Pâmela e o filho estavam, mas logo retornaram ao local onde Wesley havia sido atingido no tórax. Após a chegada de reforços, o PM Lucas apresentou sua versão, alegando que a vítima havia feito uma “menção de armamento” e reiterando a questão da placa.
As Versões em Confronto: Polícia e Testemunha
À Polícia Civil, os policiais Lucas e Héctor relataram que a abordagem foi motivada pela semelhança das motocicletas com veículos supostamente utilizados em roubos na região, além da placa parcialmente encoberta, que dificultava a identificação e reforçava a suspeita. Segundo a versão dos agentes, quando se aproximaram e deram a ordem de parada, Wesley teria feito um movimento para erguer uma das mãos, que estaria sob o casaco. Diante da percepção de uma possível ameaça ou de que ele estaria prestes a sacar uma arma, o soldado Héctor disparou uma única vez.
Contrariando o relato policial, o jovem que pilotava a moto com Wesley na garupa apresentou outra perspectiva à polícia. Ele afirmou ter ouvido primeiramente o barulho de pneus e, em seguida, gritos de “para, para”. Ao virar a cabeça, ouviu o disparo e viu Wesley cair do veículo. Por medo e sem compreender a situação, o motociclista confessou ter acelerado e fugido, chegando a pensar que se tratava de um assalto.
O Drama da Vítima e o Luto Familiar
Wesley dos Reis estava a caminho de casa, a apenas cerca de dois quilômetros de distância, após celebrar o aniversário de dois anos de sua neta. Este contexto de celebração e retorno ao lar adiciona uma camada de tragédia ao incidente. A irmã da vítima, Grazieli, relatou o impacto devastador na família, descrevendo a última vez que viu Wesley e o choque ao ser informada pelo sobrinho que o pai havia sido baleado.
A família contesta veementemente a versão dos policiais sobre uma suposta ameaça. Grazieli enfatizou que, segundo o relato de seu sobrinho e a análise inicial dos fatos, “eles não chegaram a abordar, eles não chegaram a mandar parar formalmente, eles só atiraram. Quando eles olham para o lado, é o tempo que ele atira”, sugerindo uma ação precipitada e sem o protocolo adequado de abordagem.
Ações Oficiais e Próximos Passos da Investigação
Em resposta à repercussão do caso, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou, em nota ao SP1, que tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar estão engajadas na investigação. O registro policial inicial sustenta que as duas motocicletas fugiram de uma abordagem e que um dos passageiros fez menção de estar armado, justificando a ação dos policiais. Atualmente, as imagens cruciais das câmeras corporais estão sendo minuciosamente analisadas pelo DHPP e pela própria Polícia Militar para esclarecer todos os fatos e circunstâncias do ocorrido.
Como medida administrativa, os policiais envolvidos foram afastados das ruas e designados para serviços internos. Essa decisão visa garantir a isenção da investigação e a transparência do processo, enquanto se aguardam as conclusões das apurações que determinarão as responsabilidades e as medidas cabíveis.
A morte de Wesley dos Reis, registrada em detalhes pelas câmeras corporais, levanta questionamentos urgentes sobre os protocolos de abordagem policial e o uso da força. O papel da tecnologia na gravação desses eventos é fundamental para a busca da verdade e a promoção da accountability. À medida que as investigações avançam, a sociedade aguarda respostas claras e a garantia de que a justiça será feita, tanto para a família da vítima quanto para a conduta dos agentes envolvidos.
Fonte: https://g1.globo.com